"Para o jornalista, o que é provável é verdadeiro". (Honoré de Balzac)
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Reciclada ao calor dos acontecimentos que incendiaram a disputa pelo poder político no ano passado, a velha piada poderia ser contada assim:
O garoto pergunta ao congressista:
- Vovô, roubar é feio?
E o parlamentar responde:
- Não, meu filho. Feio é ser pego roubando.
A mensagem embutida na piada é chocante para as pessoas que se julgam honestas. Porém, se substituirmos o congressista por um comerciante, um prestador de serviços ou um profissional liberal, a piada teria menos graça, mas não perderia a essência. Especialmente se fosse usado o verbo sonegar.
O médico, o dentista, o advogado, o comerciante e o encanador se escandalizam com o caixa-dois dos políticos, mas escondem da Receita Federal parte do faturamento para pagar menos impostos. Isso também é caixa-dois. Também é ilegal. Também é imoral. Mas não repercute como os escândalos políticos. Mesmo nos casos de uma butique famosa ou de uma grande cervejaria, a indignação é bem mais comedida.
Há nove meses, a sociedade brasileira assiste atordoada a um espetáculo de hipocrisia patrocinado pelos atores que fazem e promovem a disputa política e partidária no Brasil. O caixa-dois nas campanhas eleitorais é uma prática generalizada entre os partidos políticos. Isso não é novidade. Já foi dito pelo líder do PSDB no Senado, Arthur Virgilio (AM), quando foi denunciada uma planilha de caixa-dois na campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O relator da Reforma Política, deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), costumava defender o financiamento público de campanhas com a adoção de listas partidárias dizendo que os candidatos são obrigados a ter um caixa-dois porque os doadores são reticentes com o excesso de transparência exigido pela lei eleitoral.
Por uma mistura de covardia e incompetência, o governo Lula e seus aliados se deixaram tragar pela corrente de denúncias desencadeada pela descoberta de corruptos nos quadros da administração federal. O medo de enfrentar as conseqüências políticas da confissão de uma ilegalidade e a falta de confiança e solidariedade entre as lideranças petistas permitiram o florescimento de um discurso mistificador, que confundiu denúncias de corrupção com infrações eleitorais.
No pântano da disputa eleitoral antecipada, o tambor da oposição engoliu os sussurros governistas. E o escândalo ecoado pela mídia parecia não ter fim. Denúncias eram empilhadas no noticiário como cadáveres. Tudo que pudesse parecer verdade era aceito como verdade. Sem contestação. Sem verificação. Sem colocar em dúvida acusações cujos interesses políticos eram nítidos. Grande parte da sociedade - e da imprensa que deveria ajudá-la compreender a realidade - é assim: sem reservas para aplaudir ou sem freios para apedrejar.
Conclusões precipitadas
O resultado dessa turbulência é que o governo Lula foi pintado como corrupto sem que se comprovasse um ato de corrupção que tivesse a participação, conivência ou omissão do presidente da República ou dos seus principais colaboradores. Pressionados pela mídia, os responsáveis pelas investigações conduzidas pelo Congresso deram declarações precipitadas, que levaram a conclusões condenatórias, ainda que os indícios fossem inconsistentes ou insuficientes. As pesquisas de opinião mostram que isso está ficando claro para a maioria da sociedade brasileira.
Até agora, pouco do que foi denunciado como crime foi comprovado. Com toda pirotecnia das Comissões Parlamentares de Inquérito, depois de centenas de depoimentos e inquisições, milhares de papéis com informações sigilosas, parlamentares cassados, meses de investigações da imprensa, dos partidos políticos, da Polícia Federal e do Ministério Público, o que restou? Indícios de licitações dirigidas em órgãos públicos.
Sinais de propina? Só o dinheiro embolsado pelo funci