Teatro, rádio, literatura e cinema, mas deixe a televisão de fora. Tudo funciona ao mesmo tempo agora na vida do ator Paulo Autran, de 82 anos, 55 de carreira e mais de 90 espetáculos.
- Agora até estou com atividade demais - admitiu nesta terça-feira o ator, que recebeu jornalistas na platéia de um teatro em São Paulo para falar sobre sua nova peça, Adivinhe quem vem para rezar. Ele acaba de encerrar a temporada de Visitando o Sr. Green, na capital paulista.
- Gosto de fazer uma peça atrás da outra - justificou. Paulo Autran aproveitou para falar também sobre seu novo programa de rádio, um livro de fotografias e do filme que participou.
Mas o mesmo entusiasmo que faz Paulo Autran se derreter pelo teatro e pelo cinema não existe quando o assunto é televisão, em especial as novelas.
- Meu próximo projeto para a televisão é não fazer televisão (...) Fazer TV é muito chato - disse ele, dono do palco onde estava sentado ao lado de seus colegas de peça, o ator Cláudio Fontana, o diretor Elias Andreato e o autor Dib Carneiro Neto.
Segundo Autran, o teatro dá a possibilidade de sempre trabalhar e experimentar um texto, seja mudando uma pausa ou modificando o ritmo dos diálogos, coisas impossíveis de se fazer nas novelas.
- Quando você, por sorte, diz o texto inteiro, o diretor fica radiante e pronto, já quer passar para a próxima cena - disse.
Mas, ao mesmo tempo, não deixou de elogiar os colegas da telinha. "Você vê trabalhos de interpretação maravilhosos na TV", afirmou.
- Agora, a novela em si, só pode ser medíocre. A grande ambição é agradar o gosto médio da população. E eles avaliam esse gosto médio cada vez mais por baixo. O assunto precisa estar mastigado, para o espectador não precisar pensar - disse.
A última participação de Autran na TV foi uma ponta curtíssima na série Um Só Coração (2004). O ator fez apenas três novelas, Pai Herói, Guerra dos Sexos e Sassaricando, além da minissérie Hilda Furacão.
Entre um cigarro e outro
Adivinhe quem vem para rezar, que aborda relações entre pai e filho, além da dificuldade de comunicação entre os homens, teve orçamento de 500 mil reais, incluindo 250 mil reais em divulgação. A produção é da CIE Brasil (responsável por O Fantasma da Ópera, Chicago, A Bela e a Fera) e do próprio ator Cláudio Fontana.
Na peça, Paulo Autran faz três personagens diferentes, sem mudar maquiagem ou roupa. O primeiro papel é o amante da mãe do personagem de Cláudio Fontana, o segundo é o pai oficial do rapaz, e o terceiro, um padre.
Autran terminou há pouco de rodar um filme que vai ser lançado em outubro, A Máquina, do estreante em longas João Falcão. O ator faz o protagonista 50 anos depois. Ele comentou que havia recebido um convite de Cacá Diegues, mas acabou não aceitando por falta de tempo. Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças) sugeriu um papel pequeno num filme, e ele disse que pretende aceitar.
Na rádio, começou recentemente o programa Quadrante, na Band News FM, em que lê trechos de livros escolhidos por ele mesmo, para "emocionar ou divertir, para fazer o rádio-ouvinte pensar um pouco". Em setembro, lançará o livro Paulo Autran Sem Comentários, com fotos suas de diversos fotógrafos e comentários do ator.
Antes de subir ao palco para conversar com a imprensa, o ator, vestindo terno preto e camisa clara, acendeu um cigarro. Durante a entrevista, enquanto seu colega Cláudio Fontana respondia a uma pergunta, ele fazia sinais para alguém no fundo da platéia, pedindo seu maço. Foram então mais dois cigarros.
Um jornalista perguntou se já não chegou a hora de parar.
- Faz 61 anos que eu devia ter parado - respondeu, tentando encontrar a data correta.
E disse que começou a fumar "tarde", aos 23 anos, mas que antes era