Um detetive da Polícia Civil e um fazendeiro foram mortos, e um inspetor baleado, durante troca de tiros em uma fazenda de Buritis, no Noroeste de Minas, onde os policiais foram confundidos com bandidos.
Venício Lucílio da Silva, 42 anos, que morreu no local, e o inspetor André Luiz Lorens, ambos do Departamento Estadual de Operações Especiais (Deoesp), de Belo Horizonte, estariam na região apurando crimes de roubo de gado e invasões de terra.
Na noite do último sábado, eles foram chamados no hotel em que estavam por causa de um assalto que acontecia na Fazenda Agrobela, de Ubiratã de Almeida Santos, invadida por cinco homens armados. Quando os policiais chegaram à fazenda, os ladrões já haviam fugido.
O fazendeiro vizinho, Luiz Euclides Marasiga, 63 anos, que também tinha sido avisado do assalto e chegou ao local antes dos policiais, pensou se tratarem dos bandidos retornando e, armado de escopeta calibre 12, abriu fogo contra a viatura descaracterizada do Deoesp, uma Blazer preta. Marasiga também foi morto na troca de tiros.
O inspetor Lorens é o mesmo que há alguns anos foi baleado junto com o delegado Elson Matos, quando surpreendidos em uma tocaia de seqüestradores em Taubaté (SP), quando também conseguiu se salvar, perdendo a ponta de um dedo. Desta vez, ele foi ferido no ombro e nas costas, socorrido e liberado.
De acordo com o sargento Paulo Soares, do 28º Batalhão de PM de Buritis, os ladrões não levaram nada da fazenda, porque perceberam que o gerente havia escapado e poderia acionar a polícia.
- O gerente chegou à fazenda, percebeu a movimentação e fugiu para a fazenda vizinha, de onde acionou a polícia e o dono da fazenda, que estava na cidade. O gerente retornou com dois amigos, o fazendeiro que morreu e um outro, chamado Renato - disse o PM.
Quando os três chegaram à fazenda, os ladrões já haviam ido embora, sem levar nada, tendo apenas arrombado a casa do gerente e o galpão de agrotóxicos. O gerente saiu no encalço dos ladrões em uma D-20, enquanto os amigos libertavam as vítimas, que estavam amarradas.
Na cidade, o dono da fazenda acionou a PM e o contador dele, Sebastião Correia de Barros, foi ao hotel onde estavam os policiais civis do Deoesp, também para pedir ajuda, indo com quatro deles para a fazenda, a 20 quilômetros de Buritis, por uma estrada de terra. O detetive Sergio Lucílio, irmão do policial morto, estava na mesma operação.
Quando chegaram, as vítimas, já libertadas, entraram em pânico, acreditando que os bandidos estavam voltando, fugindo todos para um matagal. O fazendeiro Luiz Euclides disparou, dando início ao tiroteiro. Os policiais também pensaram que fossem os bandidos atirando.
De acordo com os colegas de Venício, o detetive já andava tristonho desde a sexta-feira, como se já estivesse prevendo a sua morte. Na sexta, ele permaneceu isolado de todos, recusando um convite para passar a tarde no clube da cidade.
O chefe da Superintendência de Polícia Metropolitana, delegado Francisco Carvalho, conta que os policiais civis estavam na cidade há dez dias, solicitados pela Justiça local para investigar crimes de roubo de gado e de invasão de terras.
- Eles deveriam ter retornado para Belo Horizonte na sexta-feira, mas ficou um serviço para trás - conta Carvalho.
Venício era casado, mas não teve filhos, criando uma enteada. Seu corpo será sepultado às 9 horas de hoje, no Cemitério Bosque da Esperança.
No velório, a família de Venício estava inconformada. Sua irmã, Maria José Lucília, 32 anos, lembrou um comentário dele, há dois meses, de que se levasse um tiro no peito, em serviço, morreria feliz, por amor à profissão de 22 anos.
- Sempre foi profundamente ético, incapaz de fazer qualquer gesto que fosse contra a conduta da sua profissão. Sempre foi uma pessoa amorosa, principalmente com os mais humildes - comentou.
Fazendeiro e detetive morrem em tiroteio em MG
Domingo, 05 de Outubro de 2003 às 21:32, por: CdB