Rio de Janeiro, 28 de Maio de 2026

Fãs do jazz curtem ritmos africanos no Senegal

Sexta, 06 de Maio de 2005 às 15:36, por: CdB

Eles podem já ter tocado em Nova York, Paris e Londres, mas, para os músicos de jazz que a cada ano lotam a sonolenta segunda maior cidade do Senegal, nada se compara à emoção de fazer jam sessions na África.

Saint Louis, uma cidade de casarões coloniais decadentes e ruas empoeiradas, abriga um evento anual descrito como o maior festival de jazz da África, e todos na cidade, desde adolescentes usando jeans largos até senhores idosos trajando as tradicionais vestes compridas locais, "boubous," querem fazer parte da ação.

"Todo o mundo aqui sabe dançar. Todo o mundo curte o jazz, já que ele se originou aqui mesmo", disse o baixista e cantor camaronês Richard Bona, 37 anos, que vive em Nova York e se apresenta regularmente na Europa com seu quinteto.

"Mesmo que o jazz tenha mudado e tomado outro rumo, suas raízes não deixam de ser africanas", disse ele na quinta-feira, depois de ser a atração principal da primeira noite do festival, na quarta-feira, com sua fusão de funk e "scat singing".

À noite em Saint Louis, os sons de trompete ou de batuques diversos saem desde janelas com varandas com grades de ferro, sinais de que os visitantes à cidade estão continuando as jam sessions com os moradores locais em bares, muito depois de terminados os concertos do festival.

Poucos dos senegaleses que entram da rua para participar das jams estudaram música de maneira tradicional. Mas eles batucam ritmos seculares que aprenderam com seus pais e avós.

Para os artistas que vêm de fora especialmente para o festival, essas sessões improvisadas servem de lembrete de que o jazz, muitas vezes criticado na Europa por ser excessivamente intelectual, tem sua origem em raízes mais humildes.

"Quem sempre me impressionou mais eram os pianistas com raízes no blues, que sempre eram autodidatas", diz Philipple Lejeune, 51 anos, pianista francês que já gravou com o americano Memphis Slim, lenda do blues e do boogie-woogie.

"Apesar de ter formação clássica no piano, sempre fiquei fascinado com esses caras, com seu de dedilhado estranho, sua maneira própria de tocar. Na Europa, os intelectuais vêem o blues como música inferior; eles não sentem a vibração."

Os organizadores do festival de Saint Louis disseram que o evento atrai dezenas de milhares de fãs de música todos os anos, vindos em sua maioria do Senegal e da vizinha Mauritânia, mas também de outras partes da África, Europa e Estados Unidos.

O objetivo é usar o dinheiro para criar uma academia de jazz em Saint Louis onde músicos africanos jovens tenham acesso a instrumentos e aulas dadas por artistas locais e estrangeiros. A academia deve ser inaugurada em 2006.

"A idéia é incentivar os jovens de talento de todo o Senegal", disse Amadou Sy Ndiongue, um dos organizadores.

Os músicos também esperam que a academia funcione como fórum para uma troca de idéias entre pessoas de tradições musicais distintas.

"O jazz diz respeito à fusão de culturas. Sabemos que ele nasceu na África negra e cresceu nos Estados Unidos, mas nós são somos nem daqui nem de lá", disse o cantor Mariano Zamora, cujo Quinteto La Chanca mistura flamenco espanhol com jazz norte-africano.

"É bom estar num continente diferente e mostrar às pessoas como trabalhamos, com alguns elementos espanhóis, outros árabes. Nós rompemos as regras tradicionais. Se as pessoas gostam do nosso trabalho, já terá valido a pena", disse ele.

O grande sonho de alguns músicos é simplesmente conservar os jovens na África -- onde boa parte do cenário do jazz é território praticamente virgem para as grandes gravadoras ocidentais --, tocando música pelo puro prazer.

"Meu avô morreu com 103 anos", disse Bona, fazendo as malas para a próxima etapa de sua turnê africana. "Ele fez música a vida inteira. Ele nunca tocou num palco em Nova York, mas, mesmo assim, nunca parou de tocar.

"Quando você começa a pensar no aspecto comercial, a música começa a morrer."

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