A família Diniz, proprietária do grupo Pão de Açúcar, anunciou nesta quarta-feira que passará a dividir o controle do maior grupo varejista do país com o sócio francês Casino. O empresário Abilio Diniz manteve em seu poder o gerenciamento do negócio, embora o Casino possa, no futuro, tornar-se o principal investidor.
A necessidade de capitalização da Companhia Brasileira de Distribuição (CBD), nome jurídico do Pão de Açúcar, foi um dos motores por trás da negociação que se prolongou por um ano e meio com o Casino, como relatou Diniz a jornalistas, em entrevista na sede da empresa, acompanhado pelos filhos e por executivos das duas empresas.
"Só fiz essa transação porque ela me permite olhar para frente e, tão longe quanto eu enxergo, me permite trabalhar aqui na CBD enquanto eu quiser", afirmou Diniz, que terá o chamado voto de Minerva nas decisões do grupo. "Essa é a minha vida, é aquilo que eu faço, que eu acho que faço bem", disse.
Para concretizar a reestruturação societária da CBD, em que o Casino passa a ser o detentor de 61,5 por cento das ações ordinárias, mas apenas compartilha o controle, foi criada uma nova empresa em que cada uma das partes detém 50 por cento. Essa holding terá o controle societário e de gestão da CBD, detendo 65,6 por cento do capital votante da empresa listada em bolsa.
O Casino ainda possui sozinho 28,7 por cento das ações ordinárias da CBD --tendo aberto mão do direito de voto--, além de outros 5,6 por cento estarem com a família Diniz, e meros 0,1 por cento com investidores do mercado. Anteriormente, o varejista francês detinha 24 por cento das ações ordinárias, mas chegou a ter a opção de incrementar a participação para até 40 por cento.
Segundo Diniz, somente num tipo de acordo como o anunciado é que o Casino conquista a vantagem de consolidar os resultados da empresa brasileira no seu balanço. "A melhor performance de todo o grupo Casino está na CBD", afirmou o empresário. A empresa teve lucro de 57,7 milhões de reais no primeiro trimestre do ano, dobrando o resultado do mesmo período de 2004.
Na França, analistas indicaram que o Pão de Açúcar trará ganhos às vendas internacionais do Casino. O impacto da transação no faturamento total da empresa francesa deve ser de 27 por cento até 2006.
Por outro lado, as agências de classificação de risco Fitch e Standard & Poor's reduziram a perspectiva de nota do Casino por causa do desembolso de 407 milhões de euros envolvidos no acordo. O negócio deve estar concluído em quatro semanas. As ações do grupo fecharam em queda de 1,20 por cento.
A transação envolve a transferência de 20,3 bilhões de ações ordinárias da CBD nas mãos de Diniz para o Casino. Em contrapartida, o empresário receberá 200 milhões de dólares em títulos conversíveis em ações do Casino e 12,5 bilhões de ações preferenciais da CBD, o que Diniz considera uma demonstração de alinhamento com os interesses dos acionistas minoritários.
Parte importante do acordo é o desembolso de 1 bilhão de reais do Casino para Diniz que, por sua vez, utilizará esse dinheiro somado a 29 milhões de reais do próprio bolso para comprar 60 lojas. Elas representam 30,5 por cento das vendas do grupo.
A CBD vai constituir uma empresa imobiliária agrupando essas lojas e venderá o controle para Diniz, garantindo contrato de aluguel por até 40 anos. O grupo ainda manterá 30 lojas próprias entre as mais de 500 em operação. Essa conversão de imóveis em caixa terá como efeito zerar a dívida líquida da CBD, que era de 897 milhões de reais em março, impactando positivamente o lucro líquido.
Segundo o presidente-executivo da empresa, Augusto Cruz, o impacto anual no lucro será de 89 milhões de reais, com efeito proporcional a pouco mais de seis meses este ano, ou aproximadamente 45 milhões de reais.
"O impacto é positivo. Aumenta o lucro líquido da companhia. Como o número de ações é constante, estamos aumentando o lucro por ação. O que vem em bastante benefício dos minoritários",