Rio de Janeiro, 01 de Outubro de 2026

Família de jornalista Eduardo Merlino comenta julgamento de cel. Ustra

Quarta, 20 de Julho de 2011 às 13:08, por: CdB

Por Ana Ignacio 20/07/2011 às 18:32

Em de julho de 1971 o jornalista Luiz Eduardo Merlino foi morto. Há 40 anos, foi levado de sua casa, em Santos. Foi para São Paulo "explicar" sua militância política. Nunca mais voltou. Merlino, então com 23 anos, foi mais uma vítima da Ditadura Militar no país.

Com passagens pelo Jornal da Tarde, Folha da Tarde, jornal Amanhã e Jornal
do Bairro, mais um capítulo de sua história - não esquecida - será escrito
no próximo dia 27. Nessa data, o coronel reformado do Exército Brasileiro,
Carlos Alberto Brilhante Ustra, será julgado pelo assassinato do jornalista.
Merlino foi torturado e morto nas dependências do Doi-Codi. Na época, o
órgão era comandado por Ustra.

Essa é a segunda ação movida pela família de Merlino - a primeira foi
extinta em 2008 antes que se chegasse à audiência das testemunhas. No dia
27, ex-militantes do Partido Operário Comunista (POC), organização em que
Merlino militava, irão depor em defesa do jornalista. O presidente do Senado
José Sarney é uma das testemunhas do cel. Ustra.

IMPRENSA conversou com Tatiana Merlino, jornalista e sobrinha de Eduardo
Merlino. Tatiana falou sobre a importância do julgamento, as dificuldades
que a família encontrou para conseguir concretizá-lo e o significado de uma
possível condenação de Ustra. Acompanhe.

IMPRENSA - QUAL A EXPECTATIVA DA FAMÍLIA PARA O JULGAMENTO?
Tatiana Merlino - Nossa expectativa é grande, pois não foi fácil chegar até
essa audiência. Essa é a segunda ação movida pela família contra o coronel
Ustra. A primeira, uma ação civil declaratória, foi extinta em 2008 antes
que se chegasse à audiência das testemunhas. Nessa nova ação por danos
morais, de 2010, o coronel Ustra tentou impedir que chegássemos à audiência,
mas o juiz não aceitou o recurso, chamado de agravo de instrumento, e aí
estamos. Acreditamos que diante dos relatos das testemunhas, que são
ex-militantes do Partido Operário Comunista, o ex-ministro da Secretaria
Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi e o escritor Joel Rufino dos
Santos, que relatam detalhes das torturas que Merlino passou até morrer, e
do momento que precede sua morte, a Justiça Paulista pode se convencer da
responsabilidade de Ustra no assassinato de Merlino.

QUAL A IMPORTÂNCIA DESSE JULGAMENTO?
Importantíssimo para a história do país, visto que estamos muito atrasados
em relação ao que se chama de Justiça de Transição: memória, verdade e
justiça. Até hoje, há apenas uma decisão da justiça declarando que um agente
do Estado foi torturador: a da família Teles contra o próprio Ustra. Nós
passamos por essa dificuldade enorme para chegar até a audiência das
testemunhas, sendo que essas ações nem são na área penal, como as que estão
sendo movidas na Argentina, onde os torturadores e agentes do Estado que
cometeram assassinatos e torturas estão sendo levados para a cadeia. Ou
seja, no aspecto justiça ainda estamos engatinhando. Já em relação à
verdade, também corremos grandes riscos, dependendo de como a Comissão da
Verdade será, e por conta da discussão do sigilo dos documentos. Aí ressalto
que entre os defensores do sigilo eterno está o senador e ex-presidente José
Sarney, que foi arrolado como testemunha do coronel Ustra na ação que a
família move contra ele.

QUAL SERIA O SIGNIFICADO DA CONDENAÇÃO DO CORONEL USTRA, CASO ISSO OCORRA?
Se Ustra for condenado, o Brasil dará um passo importante para consolidação
da democracia brasileira. Se não resolvermos a impunidade do passado, e
saber exatamente quem esteve envolvido nos crimes de tortura, estupro,
sequestro e assassinato dos opositores do regime militar, não conseguiremos
fortalecer as instituições do país.

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