Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Falta de verbas atrasa reforma da Igreja da Consolação

Segunda, 10 de Janeiro de 2005 às 18:54, por: CdB

A reforma da Igreja da Consolação, iniciada em julho, tem andado a passos tão lentos que o arquiteto responsável, Paulo Camasmie Júnior, até apelou a Nossa Senhora Desatadora dos Nós - de quem achou um santinho por acaso no chão da igreja. Um dia, um pedaço de argamassa de 500 quilos se soltou da parede e caiu sobre a capela onde estão guardadas preciosas obras de arte. No outro, foi o velário que se incendiou. "Nos últimos seis meses, a bruxa andou solta", diz Camasmie.

Pararam então as mais que urgentes obras de segurança que estavam sendo tocadas e trocaram todas as telhas da Capela do Santíssimo Sacramento, para evitar danos às telas de Benedito Calixto e Oscar Pereira da Silva. Isso atrasou a substituição do telhado principal, que cobre a cúpula central e as laterais. O velário não resistiu às chamas de tantas velas acesas e súplicas os apoios de ferro se fundiram, cerâmicas e azulejos voaram das paredes. Foi aí que ele pediu ao padre para incluir Nossa Senhora Desatadora dos Nós em suas orações, já que Nossa Senhora da Consolação sozinha não estava dando conta. Essa é a quarta equipe de engenheiros e arquitetos que tenta reformar a igreja. O maior problema, que nem a santa consegue resolver, é a falta de dinheiro.

O padre Ramon Pulido Santiago, pároco da Consolação há quatro anos, estima que precisam de R$ 2,5 milhões para deixar em ordem a igreja, edificada primeiro de taipa, em 1799, e reformada em 1840. Tinham R$ 200 mil - doados por fiéis, de R$ 1 em R$ 1 - e já gastos.

E olhe que ainda nem se chegou à parte de restauro. Por enquanto, estão sendo feitas obras de emergência, para evitar que a igreja pegue fogo (provocado pelos fios de eletricidade expostos) ou que pinturas e teto se acabem em mofo (por causa de infiltrações). Cerca de 30% das telhas estavam quebradas. A água escorria pelas paredes, pingava no altar, nos bancos, telas e afrescos.

As luzes só se acendem na hora das missas. O resto do tempo a igreja permanece escura, iluminada apenas por raios solares que atravessam os 45 vitrais, belíssimos, feitos na famosa Casa Conrado. Alguns se quebraram. Um, que ficava na pia batismal, sumiu. "Aqui deveria ter mais luz divina, do sol", comenta o desempregado Manoel Amorim, de 34 anos.

Os gatos que estão sempre por lá rondando, a Praça Roosevelt, decadente, ao fundo - tudo contribui para o aspecto meio lúgubre do lugar. À noite, Sara e Raquel, fêmeas de pastor alemão, pretas e bravas, tomam conta da igreja para evitar roubos - até de dia, carros parados na porta ficam sem toca-fitas. "Essa igreja tem coisas tão valiosas, é uma tristeza que esteja assim", diz Maria Flora de Queiroz Mello, de 69 anos, freqüentadora assídua.

Em quase um século, a Igreja da Consolação - que fez as vezes de catedral quando a Sé estava em reforma - teve pouca manutenção. Água da chuva, fungos e cupins completaram o estrago. Estruturas de madeira que sustentam os telhados estão comprometidas em pontos. Mas há uma boa notícia: a cúpula de estuque continua estável e só precisa de reparos. Palavra de especialistas.

Primeiro, estão sendo cumpridas exigências dos bombeiros relativas à segurança: troca da caixa d'água, colocação de hidrantes, alarme, luzes e saídas de emergência. "A igreja é de 1799, quando não existia nem bombeiro", brinca o engenheiro Claudio Monten.

A capela foi erguida às margens do caminho de Pinheiros, no morrinho de uma fazenda que ia da Praça da República à Avenida Paulista. Ali ficava o limite da cidade. Por uma picada no mato chegavam os leprosos, banidos de suas casas, mas lá acolhidos. Em 1855, se montou na igreja enfermaria de 30 leitos para doentes de cólera. Na primeira reforma, em 1840, ganhou cinco janelas, duas torres, porta principal, duas portas laterais, escada de acesso e uma frente acolhedora. Em 1870, virou paróquia. Em 1907, a igreja de paredes de taipa foi derrubada e no lugar surgiu a atual, com projeto do arquiteto Maximiliano Hehl, o mesmo da Sé

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