O mercado financeiro norte-americano sofreu outro profundo abalo, nesta segunda-feira, após o pedido de proteção contra falência do Lehman Brothers e o acordo de venda da Merrill Lynch. O Federal Reserve também anunciou que, pela primeira vez na história daquele país, aceitará ações em troca de empréstimos em dinheiro. Dez dos maiores bancos do mundo concordaram em estabelecer uma linha de emergência de US$ 70 bilhões, com a possibilidade de qualquer um deles tomar até um terço disso.
Em uma segunda-feira negra para Wall Street, fracassaram as negociações desesperadas para se encontrar alguém que salvasse o Lehman. Além disso, a AIG pediu ao Fed uma linha de crédito que garanta sua sobrevivência, de acordo com jornais. Mas o Bank of America acertou a compra da Merrill Lynch por US$ 50 bilhões em ações, vendo uma oportunidade de barganha com a tentativa da maior corretora de varejo do mundo de se proteger diante do medo de que pudesse se tornar a próxima vítima.
– É o retorno ao capitalismo puro, à sobrevivência do mais adaptado, O governo não pode e não vai socorrer todo mundo. Os investidores agora vão se voltar para bancos que mereçam confiança, ainda que pareça difícil falar em algo assim hoje em dia – disse Justin Urquhart Stewart, diretor de investimentos na 7 Investment Management, em Londres.
Os desdobramentos do fim-de-semana no mercado financeiro norte-americano refletiram nos indicadores na Ásia e Europa, nesta segunda-feira. À exceção de China, Japão, Hong Kong e Coréia do Sul – onde o mercado não está em funcionamento por conta de um feriado – as bolsas caíram fortemente. Nos mercados da Ásia, as notícias sobre a falência do Lehman Brothers e acerca da aquisição da Merryl Linch pelo Bank of America chegaram mais cedo, empurraram as bolsas para baixo e fizeram o dólar cair 2,7% em relação ao iene japonês – a maior variação diária desde o início de 2002. A bolsa das Filipinas perdeu 4,2% e o principal indicador da Austrália conseguiu reverter perdas iniciais e encerrou em baixa de 1,8%.
Na Europa, a Bolsa de Londres caía 3,42% às 6h37 (horário de Brasília), com 5.231,30 pontos; a de Paris despencava 4,29%, com 4.146,70 pontos e a de Frankfurt recuava 3,34%, com 6.026,37 pontos.
Para o analista financeiro Ralph da Silva, notícias como essas não são vistas em todo o século. Ele avalia, entretanto, que ninguém está realmente surpreendido com a redução do número de bancos e que o que surpreende é a velocidade com que o processo está ocorrendo.
– Na indústria bancária, esse tipo de coisa leva anos, não dias – afirmou.
A crise nos Estados Unidos, que já completou um ano, se intensificou porque vários credores do setor imobiliário deixaram de pagar suas dívidas. Eles estão no grupo do subprime, um tipo de mercado que não exige garantias como comprovante de renda. Como se trata de uma operação de alto risco, os empréstimos são feitos a taxas bastante elevadas. O retorno para o investidor é bom, mas arriscado.
Os bancos, que emprestaram muito aos mutuários, não receberam. Em conseqüência, as instituições e os investidores do mundo inteiro que emprestam aos bancos também não recebem e sofrem o efeito dominó. Nos dois últimos dias, bancos centrais de vários países colocaram mais de US$ 300 bilhões para ajudar os bancos a manter seus empréstimos, já que os investidores estão tirando seu dinheiro do mercado de crédito para aplicar em outros setores mais seguros, como ouro ou títulos públicos.
Novos líderes
O Bank of America acertou a compra da corretora pelo equivalente a US$ 50 bilhões em ações, com quase US$ 12 a mais por ação do que o fechamento de sexta-feira. Os futuros do índice S&P 500, em Wall Street, tinham baixa de 3%, sinalizando que o mercado de ações dos Estados Unidos vai abrir em forte queda. O dólar também sofria. O euro chegou a ser cotado a US$ 1,4479, alta de 1,7% em relação a sexta-feira, e o rendimento dos Treasuries despencava para o menor nível em cinco anos com a preocupação sobre a estabilidade do sistema financeiro e com a aposta cada vez maior em um corte do juro pelo Fed.
Os eventos sinalizam uma transformação na estrutura de poder de Wall Street, com bancos como Bank of America e JPMorgan Chase se tornando dominantes. Com o Lehman e a Merrill fora do jogo, três dos cinco maiores bancos de investimento dos EUA saíram de cena nos últimos seis meses. O Bear Stearns foi comprado a preço de liquidação pelo JPMorgan em março. Em seu pedido de proteção contra falência, o Lehman afirmou que o Citigroup, o Bank of New York Mellon e os japoneses Aozora Bank e Mizuho Financial estavam entre os maiores credores sem garantia.