Rio de Janeiro, 25 de Setembro de 2026

Falando francamente sobre consumo e consumismo

Quarta, 06 de Julho de 2011 às 08:22, por: CdB

Somos, por natureza, seres consumidores e estamos no topo dacadeia alimentar. Logo, consumir é nosso destino natural, o problema são osexcessos. Excesso de gente, que já está demais e que continua se multiplicandoglobalmente, embora se reduza em diversos países e regiões. Cada boca que nascedemanda por mais recursos naturais, que não são infinitos. Mas existe umexcesso ainda pior, o da desigualdade social, que permite que uns poucos possamse apropriar de mais recursos que a maioria, ou seja, não adiantará muitodiminuir o excesso de gente sem também diminuir a ganância.

O mundo atual se construiu em torno da falsa idéia de que omercado será capaz de suprir as necessidades humanas, a ponto de aceitarmos aorganização da sociedade em classes sociais em função do poder de consumo. Quempode consumir muito pertence às classes altas, os remediados, à classe media, eos pobres, às classes baixas. A reboque do conceito do poder aquisitivo surgequase que naturalmente a falsa noção de que os que tem muito são maisimportantes e com mais direitos do que os que não tem, e isso é absolutamentefalso, pois somos todos iguais em dignidade e direitos. O mercado só consegueser solução para os que têm dinheiro. Para os demais, é preciso políticaspúblicas.

O problema não está só no colapso ambiental, mas no colapsoético e moral que nos põe em risco enquanto humanidade e civilização muitoantes de desaparecermos enquanto espécie. Se as pessoas aceitarem a idéia deuma sociedade que valoriza o dinheiro acima dos valores humanos, acumularriquezas pode se tornar um fim em si mesmo em vez de meio de vida, aliás, aprópria idéia de vida pode se empobrecer a ponto de se resumir a produzir numaponta e consumir na outra. Bem longe da idéia de viver em abundância eplenamente. Em vez de nos tornarmos mais solidários e cultivarmos bons valorese a cidadania, acabaremos valorizando muito mais o individualismo, omaterialismo, a competição desmedida, a insensibilidade com os menosfavorecidos.

E tudo isso baseado numa mentira, a de que se todosalcançarem os mesmos padrões de consumo dos mais ricos, será possível haverrecursos naturais para todos. Fazer com que todos acreditem nesta mentira éconveniente para os que dominam e controlam os recursos e as riquezas, pois emvez de pedir por mudanças, as pessoas irão querer que tudo continue como estána esperança de que um dia chegará a sua vez e que só não chegou ainda por quenão foram capazes ou merecedores o suficiente. Não é de se admirar que seja tãodifícil ser sustentável e compatibilizar progresso e meio ambiente.

Mas não é impossível.

Não só outro mundo é possível como já vemos por todos oslados os sinais dessa mudança. Por mais que alguns gostem de se iludir comfalsas promessas de consumo, elas percebem os sinais de esgotamento do Planeta.Um novo mundo já esta nascendo do velho mundo, e o que assistimos são as doresdo parto.

Precisamos é de coragem para persistir nos caminhos damudança e valorizar escolhas diferentes das que trouxeram a humanidade à beirado colapso.

Não temos que comprar tudo o que vemos nas prateleiras. Nãotemos de acreditar em tudo o que se diz nas propagandas e devemos duvidar dasinformações tendenciosas, mentirosas e manipuladores. Não temos que seguir amoda e descartar um produto que ainda serve. Não precisamos de nenhum bem deconsumo para amar e ser amados, ou para sermos felizes, ou para nos sentirmosimportantes e reconhecidos socialmente.

Da mesma maneira que temos a liberdade de consumir o quenosso dinheiro ou crédito a perder de vista nos permite, também temos aliberdade de recusar o consumo desperdiçador de recursos. Podemos escolherconsumir criteriosamente, apenas para atender a necessidades objetivas erealmente necessárias, preferir produtos socioambientalmente responsáveis,recicláveis, que fortaleçam as cadeias produtivas locais e a criatividade denossos trabalhadores e artesãos. Podemos consumir de maneira planejada em vezde agir por impulso. Temos o poder de dizer sim e também de dizer não. Somos nóso poder do mercado.

Não foi o consumismo que nos fez assim. Ele apenasaproveitou a oportunidade por sermos assim e encheu as lojas e prateleiras enossos sonhos e desejos de bugigangas e objetos que no final podem nem ser tãoimportantes para vivermos uma vida plena e feliz.

Os inimigos não estão fora de nós. Para resolvermos a crisesocioambiental em que nos metemos, teremos de ter a coragem de admitir quesomos uma parte importante do problema - e também da solução.

[* Vilmar edita deste janeiro de 1996 a Revista do MeioAmbiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente(www.portaldomeioambiente.org.br).Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em2003, o Prêmio Verde das Américas - www.escritorvilmarberna.com.br].

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