Por Roberto Porto - Estive com o doutor Roberto Marinho (1904-2003), de maneira acidental, uma única e escassa vez, na década de 70. Inteiramente fora de meu horário de trabalho na editoria de esportes, Estive no Globo mais ou menos na hora do almoço. Não me recordo o que lá fui fazer. O fato é que quando ia saindo, no hall dos elevadores da redação, nos encontramos, sós, frente a frente. Cumprimentei-o educadamente e ele retribuiu.
Uma das muito boas colunas do nosso colega colunista Roberto Porto, ontem falecido
23/06/2007 - Estive com o doutor Roberto Marinho (1904-2003), de maneira acidental, uma única e escassa vez, na década de 70. Inteiramente fora de meu horário de trabalho na editoria de esportes. Estive no Globo mais ou menos na hora do almoço. Não me recordo o que lá fui fazer. O fato é que quando ia saindo, no hall dos elevadores da redação, nos encontramos, sós, frente a frente. Cumprimentei-o educadamente e ele retribuiu.
Quando o elevador chegou - me lembro que o ascensorista usava luvas brancas - foi aquela troca de mesuras. Eu queria que ele tivesse a primazia de entrar primeiro mas ele não permitiu. E ordenou: ‘”Os mais jovens, primeiro..”.’ No térreo, a mesma coisa. Ele me fez sair na frente. De repente, chegamos à escadaria do jornal, lado a lado, ele esperando um sinal de seu motorista, eu, de bobeira.
Foi quando apareceu o diagramador do esporte Ney Trancoso Meirelles, com seu espalhafato de sempre. E da entrada do Globo gritou para mim: ‘Fala, Robertão...’
Fiquei tão envergonhado com aquela aparente confusão que não respondi e escapei a passos largos para a direita, a caminho do estacionamento. O doutor Roberto, que não sabia meu nome e igualmente não esperava aquela intimidade toda por parte de um simples funcionário, ficou sem alternativa. E, educado como sempre, fez um pequeno aceno com a mão direita para o diagramador.
Aliás, naquelas circunstâncias, o que mais ele poderia fazer?
Anos depois, quando o doutor Roberto morreu, O Globo colocou nas bancas, junto à edição normal do jornal, um caderno especial sobre a vida do homem que a partir do falecimento do pai, Irineu Marinho (1876-1925) transformou O Globo na potência que é hoje. E uma das manchetes do tal caderno especial, em seis colunas, dizia simplesmente o seguinte: ‘O dia em que o doutor Roberto virou Robertão’
Fui obrigado a contar essa história dezenas de vezes. Uma delas para o filho do doutor Roberto, José Roberto (hoje diretor da Rádio Globo) em sua sala na Rede Globo de Televisão, no Jardim Botânico. José Roberto adorou.
Quando deixei a sala de José Roberto, peguei o elevador e dei de cara nada menos do que com Xuxa Meneghel. Apenas nós dois, eu fingindo que não a reconhecera. Foi então que o maldito elevador enguiçou e Xuxa ficou nervosíssima, esmurrando as paredes, a porta, tocando o alarme e pedindo socorro aos berros.
Foi então que chegou a minha vez.
Sentei-me no chão, placidamente, e, diante do desespero dela, disse apenas o seguinte:
‘Olha, garota, fica fria que daqui a pouco eles nos tiram daqui...’
Um sujeito como eu que conviveu com Nascimento Brito (1922-2003), Adolpho Bloch (1908-1995), Nélson Rodrigues (1912-1980), Otto Lara Resende (1922-1998), Vinícius de Moraes (1913-1980), Alceu Amoroso Lima (1893-1983), Samuel Wainer (1912-1980) e João Saldanha (1917-1990), para citar apenas estas oito figuras, não poderia dar uma de tiete da chamada Rainha dos Baixinhos. Ou deveria?
Se saí do elevador intacto? Saí. Em plena forma física e técnica. (Publicada originalmente no Direto da Redação editado pelo colega Eliakim Araújo e por ele nos enviada)
<b>Roberto Porto</b>, jornalista esportivo, da equipe do Direto da Redação original, ontem falecido, homenagem dos sobreviventes.
<b>Direto da Redação</b>, é um fórum de debates, agora editado pelo jornalista Rui Martins.
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