Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Facundo Cabral: daqui, de lá, de Deus

Quinta, 14 de Julho de 2011 às 12:00, por: CdB

Não sou daqui nem de lá, cantava o cantor e compositorFacundo Cabral, argentino de La Plata, Província de Buenos Aires, nascido em1937 e assassinado na Guatemala no último dia 9 de julho, data nacional de seupaís. Calou-se a voz do trovador, que depois de uma difícil trajetória por umainfância e juventude pobres, uma viuvez trágica acontecida aos 40 anos,conquistou os corações de milhares e milhares de admiradores que hoje choramsua perda.

Facundo nasceu e morreu migrante e errante, nem daqui nem delá, como cantava em seu maior sucesso musical "No soy de aqui, ni soy de allá”.Um dia antes de seu nascimento, o pai de Facundo abandonou a casa, esposa esete filhos. O oitavo - Facundo - nasceu nas ruas de La Plata, pois após apartida do filho, o avô paterno expulsou nora e netos de sua propriedade. De LaPlata mãe e filhos emigraram para a Terra do Fogo, extremo sul da Argentina.

A infância pobre e desprotegida levou Facundo àmarginalidade e ao reformatório quando ainda jovem. O álcool onde afogava suasmágoas e dores o fez ser violento e considerado perigoso para a liberdade. Naprisão, um jesuíta o ensinou a ler e escrever; e o jovem inteligente e inquietotomou contato com a literatura universal, terminando o curso primário esecundário em tempo recorde.

Foi um vagabundo errante e errático como ele, companheiro darua, que o fez conhecer a religião, despertando sua espiritualidade sem pertençainstitucional alguma. Segundo ele mesmo, "comecei a cantar com a gentesimples... E no dia 24 de fevereiro de 1954, um vagabundo me recitou o Sermãoda Montanha e descobri que estava nascendo. Corri para escrever uma canção deninar”.

Assim começou o amor pela música e a carreira musical, em umhotel de Mar del Plata. Mas foi em 1970 que gravou seu maior sucesso, "No soyde aqui ni soy de allá” que o projetou internacionalmente e o fez ser traduzidoem nove idiomas. Juntamente com o talento artístico, Facundo Cabral era alguémprofundamente espiritualizado. Citava entre suas maiores influências Jesus deNazaré, Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. E literariamente reconheciapaternidade em Borges e Walt Whitman.

Suas letras e canções são marcadas por uma observaçãocomprometida e militante, inconformada e crítica. Tudo isso o fez ser persona non grata por parte da cruelditadura argentina, que perdurou de 1976 a 1983. O talentoso cantor erranteteve que exilar-se no México, continuando ali sua carreira musical, sempreitinerante, percorrendo lugares e países, levando sua música.

Regressou a Buenos Aires em 1984, dando showsmultitudinários com enorme sucesso. No peito de Facundo, uma ferida sangrou atésua morte quando perdeu tragicamente a mulher e a filha em um acidente deavião. Novamente sem lar como quando nascera, Facundo passa a residir emquartos de hotel, enfatizando ainda mais a errância que o caracterizava.

Assim se descrevia quando completou 70 anos: "Foi mudo atéos nove anos, analfabeto até os 14, enviuvou tragicamente aos 40 e conheceu seupai aos 46. O mais pagão dos pregadores completa 70 anos e repassa sua vida emum quarto de hotel que escolheu como última morada.”

Facundo Cabral tinha 74 anos ao morrer assassinado no últimodia 9 de julho, enquanto seu país celebrava a festa nacional. Havia dadograndes recitais na capital da Guatemala nos dias 5 e 7, aplaudido por centenasde fãs. Partia para a Nicarágua quando foi brutalmente assassinado por um grupode homens armados de metralhadoras.

Apenas a morte imobilizou o inquieto peregrino e viajanteque não era daqui nem de lá. A violência assassina das pobres cidadeslatino-americanas dirigiu-se contra ele e interrompeu seu canto. O mundo queamava sua música contempla, estarrecido, essa morte brutal que há muito vitimae fustiga os pobres, e que parece agora lançar-se também contra os artistas.

Facundo, que não era daqui nem de lá, agora é totalmente deDeus, do Deus que buscou sem cessar desde a infância desprotegida e pobre até aerrância solitária e nostálgica da companheira e da filha que se foram antes dahora. Calou-se o cantor, mas não o canto. Este ficará para inspirar e mobilizaraqueles que como ele ainda acreditam que o sonho de Deus pode realizar-se nestemundo se não formos tão distraídos que sejamos incapazes de escutá-lo.

[Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor”(Ed. Rocco).
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibidaa reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ouimpresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária(mhpal@terra.com.br)].

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