Irã e Estados Unidos tiveram, nesta segunda-feira, uma histórica reunião em Bagdá. Foi o primeiro contato oficial desde que os dois países romperam relações, em 1980, devido ao seqüestro de 52 americanos na embaixada americana em Teerã.
O encontro aconteceu em meio a um forte ataque de caminhão-bomba perto da maior mesquita sunita da capital, onde pelo menos 24 pessoas morreram e 68 ficaram feridas.
Na reunião a porta fechadas, o embaixador dos EUA, Ryan Crocker, e o iraniano, Hassan Kazemi, se limitaram a discutir a situação da violência no Iraque, sem referências às frias relações bilaterais e ao programa nuclear iraniano.
No entanto, o encontro entre o "grande Satã", como o Irã chama os EUA, e o membro do "eixo do mal", como os americanos definem o Irã, é um marco em mais de duas décadas sem reuniões oficiais diretas.
O embaixador norte-americano no Iraque, Ryan Crocker, qualificou de positivo o raro diálogo mantido na segunda-feira entre representantes dos EUA e do Irã, mas afirmou ter pedido que Teerã pare de apoiar milícias no Iraque.
À época, a revolução Islâmica iniciada em 1979 pelo aiatolá Khomeini afastava o país do Ocidente. As relações entre os dois países pioraram após a invasão da Embaixada americana em Teerã, no mesmo ano.
As negociações de agora ocorrem em meio a tensões crescentes em torno do programa nuclear iraniano e da acusação americana de que o Irã financia grupos militantes que fomentam a violência sectária no Iraque.
Brevidade
Mas os representantes diplomáticos esperam deixar o primeiro tema de fora da conversa, e limitar-se à situação no Iraque.
O correspondente da BBC em Bagdá Paul Wood disse que o encontro será "breve".
"Os Estados Unidos acusam o Irã de armar, treinar e financiar alguns grupos xiitas que estão matando soldados americanos no Iraque. Já o Irã quer simplesmente que os Estados Unidos saiam do Iraque", ele explicou.
Os dois países consideram que têm em comum o "interesse estratégico" de ajudar na consolidação do governo iraquiano, hoje apoiado pelos Estados Unidos, mas xiita e simpático ao Irã.
"Nenhuma novidade é esperada, mas o simples fato de estas discussões estarem ocorrendo já é significante", observou Paul Wood.
Já o correspondente da BBC em Washington Jonathan Beale disse que, apesar da tensão, os Estados Unidos querem que o Irã desempenhe um papel mais importante na situação iraquiana.
Beale considerou improvável, entretanto, que haja avanços, "dado o nível de hostilidade".