Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2026

Êxodo de brasileiros volta a crescer

Apesar da crise nos países ricos, o êxodo de brasileiros para o exterior voltou a ganhar força em 2009 após cair em 2008 e atingiu o maior patamar da década, sugere um levantamento realizado a partir do saldo de entradas e saídas nos aeroportos brasileiros.

Segunda, 22 de Novembro de 2010 às 08:47, por: CdB
Apesar da crise nos países ricos, o êxodo de brasileiros para o exterior voltou a ganhar força em 2009 após cair em 2008 e atingiu o maior patamar da década, sugere um levantamento realizado a partir do saldo de entradas e saídas nos aeroportos brasileiros. Em 2009, o número de passageiros que entraram e saíram do Brasil por via aérea apontou para uma saída líquida de aproximadamente 90 mil pessoas. No ano anterior, os números revelavam um fenômeno inverso. O saldo foi negativo, indicando que, em 2008, cerca de 28 mil pessoas a mais entraram no país em relação aos que saíram. – O ano de 2008 foi claramente um ano especial. A crise veio muito forte e atingiu o mercado de trabalho, principalmente nos países para onde a migração estava se dirigindo. Em 2009, a saída líquida voltou a aumentar. Foi uma velocidade surpreendente –, considera Victor Hugo Klagsbrunn, autor do levantamento que aponta para o que o autor chama de "saldo migratório", calculado com base em dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O pesquisador ressalta que os números não devem ser tomados como um indicador absoluto, mas servem como termômetro para identificar tendências na migração de brasileiros – movimento que carece de indicadores oficiais. De acordo com Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), um dos fatores que podem explicar essa aparente contradição é a falta de informação sobre a gravidade da crise entre os novos imigrantes. – Estive recentemente em Portugal e encontrei gente arrumando as malas para voltar, dizendo que a situação econômica está muito ruim. Ao mesmo tempo, encontrei muita gente chegando. São pessoas que formam a ideia de que o mercado lá fora é melhor e vão, sem nem saber direito da crise –, conta. Klagsbrunn aponta ainda uma outra explicação para o fenômeno. A despeito do crescimento da economia brasileira, para muitos, tentar a vida no exterior ainda parece uma opção melhor. Para ele, a redistribuição de renda com o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo beneficiou a classe baixa, mas uma grande parcela da classe média permanece sem perspectiva de crescimento no Brasil. – Perguntam por que o pessoal continua saindo se o Brasil está bombando. Não é bem assim. Muita gente, por exemplo, tentou a ascensão social por meio do curso universitário, mas não conseguiu e ficou sem perspectiva –, diz. Segundo Klagsbrunn, os dados da Anac indicam que o êxodo de brasileiros tomou força a partir de 1980. Desde então, a tendência mais ampla tem sido de uma saída líquida positiva. O saldo migratório só se tornou negativo em três momentos (1998, 2001-2004 e 2008), sempre associados a crises internacionais. A inversão mais drástica veio em 2001, quando os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York estancaram o forte fluxo de migração que se dirigia para os Estados Unidos. Diante do maior controle de fronteiras nos EUA, a emigração brasileira logo mudou de alvo. A partir de 2005, voltou a ganhar força puxada pela chegada maciça de brasileiros à Europa. Entre 2001 e 2009, o saldo migratório para a Europa foi de mais de meio milhão de pessoas. O número permanecia positivo e seguia crescendo até 2008, quando foi praticamente zerado. Em 2009, o saldo foi negativo para Alemanha, Espanha e Reino Unido. Mas voltou a crescer para França e Portugal. Outra tendência crescente ao longo da última década foi o aumento do saldo migratório para América Central e México. De 2001 a 2009, 95 mil pessoas partiram de aeroportos brasileiros, sem retorno, para a região. – Isso indica o uso de rotas alternativas para chegar ao EUA –, diz Klagsbrunn, lembrando que o Panamá e outros países passaram a ser procurados depois que o México introduziu o visto obrigatório para brasileiros, em 2005. Com os Estados Unidos, os dados indicam que o saldo de passageiros entre 2001 e 2009 foi negativo, com cerca de 300 mil pessoas a mais tendo chegado ao Brasil do que saído. O movimento de queda continuou após a crise de 2008, mas apresentou recuperação em 2009, embora o saldo continue negativo. Oportunidades A busca por melhores oportunidades fora do Brasil se traduziu em um êxodo que já dura três décadas. Hoje, o Ministério das Relações Exteriores estima o número de brasileiros no exterior em cerca de 3 milhões. Para chegar a uma estimativa mais precisa deste contingente, o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) incluiu em sua enquete de 2010, pela primeira vez, uma pergunta sobre o assunto. Em cada domicílio, os recenseadores perguntaram se havia alguém vivendo no exterior e em qual país. – Esses movimentos de saída afetam algumas estatísticas fundamentais para o Brasil, como as projeções de população –, justifica Marco Antonio Alexandre, coordenador técnico do Censo 2010. As informações devem ser divulgadas apenas em 2011. Além de possibilitar projeções, o censo deve trazer dados sobre o perfil dos migrantes, indicando faixa etária, os destinos preferenciais e os fluxos emigratórios concentrados a partir de municípios específicos.
Tags:
Edições digital e impressa