Pesquisadora compara parlamentares influentes com integrantes da cúpula da Igreja Católica.
Brizza CavalcanteDébora Messenberg: o acúmulo de capital político está relacionado à ocupação de cargos públicos.A socióloga e professora da Universidade de Brasília (UnB) Débora Messenberg afirmou nesta terça-feira (22), durante a 3ª Mesa do Seminário “Poder Legislativo: Desafios Atuais”, que o capital político acumulado por um parlamentar ao longo da carreira pode garantir sua inclusão em grupo de elite, conhecido informalmente como alto clero - numa referência ao Colégio dos Cardeais da Igreja Católica, órgão responsável pela escolha do Papa.
A existência do alto clero foi o tema mais discutido na 3ª Mesa, que tinha como tema a carreira parlamentar.
Ao antecipar sua pesquisa, a socióloga enfatizou que o estudo não pretende estabelecer julgamento de valor ou relação entre a conduta ética e a denominação como alto ou baixo clero. Ela explica que no Brasil o acúmulo de capital político está principalmente relacionado ao fato de o parlamentar ter ocupado cargos públicos de destaque. “A pesquisa mostra que 58,3% dos deputados federais que integram a elite ocuparam cargos públicos importantes dentro da estrutura administrativa pública, incluindo cargos de ministro e de secretário de estado”, afirma.
Disputas políticas
A socióloga ainda sustenta que fatores como a posição ocupada pelo parlamentar dentro do organograma do Poder Legislativo e a relevância dos setores que ele representa costumam interferir na maneira como esse parlamentar é reconhecido pelos demais. “É elite aquele que é reconhecido pelos demais como tal. Mas essa denominação é resultado de um processo constantemente construído com base em disputas políticas que envolvem todos os integrantes do Parlamento”, afirma.
Considerado pelos demais debatedores um representante do alto clero, o deputado Miro Teixeira (PDT-RS) pondera que a denominação peca um pouco por não considerar determinadas questões circunstanciais ligadas ao momento histórico. “Na época dos anões do orçamento, eles mesmos eram considerados parte do alto clero”, destacou Teixeira, questionando a conduta de alguns parlamentares ditos do alto clero.
Cabeças do Congresso
Para o jornalista e diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) Antônio Queiroz, a denominação alto clero reflete em parte a lista publicada anualmente pelo departamento, chamada de Cabeças do Congresso, que reúne as principais lideranças do Congresso Nacional e indica os nomes que estão em ascensão nas duas Casas.
Segundo Queiroz, para integrar a lista, o parlamentar precisa possuir características que comprovem empenho, capacidade, compromisso, além de participar decisivamente da discussão e votação de propostas. “A partir daí, nomes como o do deputado Miro Teixeira vão se firmando como grandes debatedores, articuladores e formadores de opinião”, disse.
Reforma Política
O deputado Miro Teixeira questionou ainda o atual papel do Poder Legislativo dentro do contexto da democracia representativa. “Precisamos de uma revolução política pacífica, capaz de nos oferecer uma burocracia que ajude a defender os interesses do povo”, afirmou.
Citando trecho da obra do sociólogo Max Weber, o deputado disse temer que o funcionamento do Legislativo se aproxime do papel simbólico observado em outros momentos da história, quando o Parlamento apenas legitimava a participação do povo nas decisões do governo.
O evento é promovido pelas associações dos consultores da Câmara, do Senado e do Tribunal de Contas da União (TCU) e pelo Sindicato dos Servidores do Legislativo Federal (Sindilegis). Veja a programação completa.
Edição – Regina Céli Assumpção