Rio de Janeiro, 20 de Abril de 2026

Exército nas favelas: tiro no pé

Por Ricardo Rabelo - Conforme disse semana passada, o roubo de armas do exército no Rio de Janeiro tinha de ter a cumplicidade de gente de dentro da corporação. Até o presente momento, já está provado a participação de cinco militares na ousada invasão do quartel do Estabelecimento Central de Transportes. (Leia Mais)

Sexta, 17 de Março de 2006 às 10:39, por: CdB

Conforme disse semana passada, o roubo de armas do exército no Rio de Janeiro tinha de ter a cumplicidade de gente de dentro da corporação. Até o presente momento, já está provado a participação de cinco militares na ousada invasão do quartel do Estabelecimento Central de Transportes. Só que ao invés de investigar dentro da instituição, os militares colocaram
as tropas nas favelas numa das maiores intimidações contra comunidades pobres da cidade. A ação resultou literalmente num "tiro no pé" (um recruta atirou contra si) e demonstrou um "festival" de irregularidades.

A Constituição é clara quando diz que as Forças Armadas só podem intervir em caso de crise institucional grave, o que não era o caso. O fato mostrou que o exército agiu muito mais movido pela emoção do que pela razão. Isso me preocupa, pois poderá repetir este tipo de conduta quando bem entender. Até onde isso pode chegar? Qualquer dia poderá invadir uma redação de jornal ou TV sob alegação de que está sendo insultado ou afrontado. O mais absurdo é as autoridades compactuarem com esta operação e principalmente a mídia de ter legitimado esta aberração.

O próprio presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo condenou a iniciativa. Em carta ao Bafafá nesta quinta-feira, ele afirma que "trata-se de uma ação claramente inconstitucional, pois constitui uma intervenção numa unidade federativa, o Estado do Rio de Janeiro, e desvia o Exército das atribuições que a Constituição estabelece".

Apesar das armas terem sido recuperadas (ou melhor devolvidas) o que ficou foi uma cicatriz no currículo de nosso exército. Triste foi ver soldados despreparados sendo debochados por marginais. O coroamento desta desastrada operação veio com o tiro no próprio pé de um soldado na favela da Rocinha.

Uma pergunta que não quer calar: onde estão as entidades de Direitos Humanos, da Sociedade Civil? Quem cala, consente.

Ricardo Rabelo é editor do jornal Bafafá (www.bafafá.com.br)

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