O Exército sudanês foi acusado nesta segunda-feira por uma organização ecologista de estar por trás dos massacres de elefantes e do transporte das presas para a capital, Cartum, onde grande quantidade de marfim ilegal é vendida abertamente.
- Durante nossa visita em fevereiro de 2005 encontramos cerca de 11.300 objetos de marfim numas 50 lojas - disse Esmond Martin, especialista que realizou a investigação para a organização Care for the Wild International.
- Praticamente todos os lojistas entrevistados afirmaram que são membros do exército sudanês que matam os elefantes com armas de fogo e utilizam posteriormente veículos militares para transportar o marfim ilegal - acrescentou Martin.
A venda de marfim está proibida pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Risco de Extinção (Cites, em inglês), de 1989, que só permite a venda de objetos fabricados com marfim extraído antes de 1990.
Mas a maior parte do marfim vendido no Sudão procede de presas de elefantes abatidos recentemente, principalmente no sul do país e na República Democrática do Congo (RDC), além de, em menor grau, na República Centro-Africana, Quênia e Chade.
Cerca de 75% dos objetos são comprados por cidadãos chineses que trabalham no Sudão no setor do petróleo ou na mineração (calcula-se que somam entre 3.000 e 5.000 pessoas), e que adquirem fundamentalmente jóias, figurinhas e palitos para comer.
A China foi, desde meados dos anos 90, o maior importador de marfim ilegal do mundo, a maior parte procedente da África.
- O preço do marfim subiu devido a um aumento da demanda. A economia chinesa vai bem e o poder aquisitivo dos chineses aumentou - disse Nigel Hunter, diretor do Programa Mike, encarregado de avaliar a população de elefantes e o massacre ilegal desses animais.
Os proprietários das lojas adquirem o marfim a um preço entre 44 e 148 dólares por quilo, mais que o dobro do preço de 1997, quando custava entre 15 e 43 dólares.
Martin afirmou que:
- As lojas anunciam abertamente em cartazes a disponibilidade de marfim, e os vendedores mostram a mercadoria sem problema porque sabem que não serão punidos.
Martin ressaltou ainda que o governo do Sudão não tem que aprovar novas leis para proteger os elefantes, "mas apenas assegurar que as leis atuais sejam cumpridas".
Calcula-se que entre 1979 e 1989 o continente africano tenha perdido a metade da população de elefantes devido à caça.
Hoje, apesar da proibição internacional do comércio de marfim, tanto elefantes como rinocerontes continuam em perigo em algumas regiões da África.
O número de elefantes no Parque Nacional de Garamba, no extremo nordeste da RDC, na fronteira com o Sudão, passou de 11.000 exemplares em 1995 a 1.453 em 2003 devido à impunidade da caça ilegal no país, segundo dados do Fundo Internacional para o Bem-estar Animal (IFAW, em inglês).
Estima-se que existam menos de dez exemplares de rinocerontes brancos, o mamífero em maior risco de extinção do mundo, vivendo de forma selvagem, quatro deles no Parque Nacional.
Nove rinocerontes, inclusive uma fêmea grávida e um filhote, foram encontrados mortos em 2004.
Segundo a IFAW, há alguns anos operam no sul do Sudão e nordeste da RDC as milícias árabes Murahaleen, grupo étnico emparentado com as Janjaweed, acusadas de graves abusos e atrocidades na região sudanesa de Darfur.
As milícias cruzam a fronteira a cavalo e usam burros para transportar o marfim das presas de rinocerontes e elefantes de volta ao Sudão.
Exército do Sudão é acusado de tráfico ilegal de marfim
Segunda, 14 de Março de 2005 às 12:11, por: CdB