Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

<i>Exclusivo</i>: Entrevista com Miguel Sanches Neto

Sexta, 02 de Abril de 2004 às 17:41, por: CdB

Imagine hoje, em tempos de tecnologia e de globalização da comunicação cujos templos são representados pelas lan houses, um garoto trocar o micro pela máquina de datilografar. Impossível, diriam alguns.

Mas para muitos escritores contemporâneos, o barulho do sobe-e-desce das teclas e do contato com a folha branca, inibida, esperando a tinta marcar-lhe o destino em letras surpresas, ainda é o charme que não sucumbiu diante da paixão de redigir romances. Assim foi com Miguel Sanches Neto em sua infância - e ainda é, mesmo que não tome as máquinas diretamente como amantes na cumplicidade do processo literário.

A ojeriza no primeiro encontro cedeu lugar a um romance ininterrupto desde então. "Queria viver entre máquinas, queria o som das teclas. Hoje, escrevo no computador, mas há máquinas velhas espalhadas pelo escritório, para que eu me sinta de novo naquele útero acolhedor que era a sala de datilografia", confessa ele.

Sanches Neto ganha seu espaço no mercado. Lançou Chove sobre minha infância - romance em tom confessional que será publicado na Espanha, e Hóspede Secreto, livro de contos que lhe rendeu o prêmio do Concurso Cruz e Sousa, em 2002. Nesta entrevista, ele disseca um pouco sobre seu processo de criação, a vida de escritor e a literatura no Brasil.  "A ficção é este jogo de esconder/revelar quem somos e no que os outros - os personagens - são", brinca, ao passo que, diante de um cenário brasileiro tão carente do hábito da leitura, deixa uma pergunta que incomoda: "Quem forma leitores hoje no Brasil?"
 
Concorda que todo escritor é um pouco confessional em suas obras? Ou seja, muitos dos personagens são os espelhos dos conflitos do escriba. Você também é assim?

A entrada de dados biográficos em uma obra é algo inevitável, mesmo que o ficcionista escreva sobre um assunto distante no tempo e no espaço. A matéria do escritor é sempre ele mesmo, que pode estar explícito no texto ou velado. Não dá para fugir da proximidade do vivido.

No romance Chove sobre minha infância (Record, 2000), criei um personagem que leva meu nome, vive minha infância, relaciona-se com as pessoas com quem me relacionei, ou seja, criei um duplo, que não sou eu e sim um outro porque levantado com este barro moldável que é a linguagem.

Acredito que toda ficção é sempre uma espécie de autobiografia, mas isto não diminui em nada o grau de ficcionalização, pois, dialeticamente, para nos representarmos de modo profundo temos que nos afastar de nós mesmos. A ficção é este jogo de esconder/revelar quem somos no que os outros - os personagens - são. 
 
Alguns autores se trancam em salas, outros ensaiam o enredo de uma obra inteira durante uma caminhada. Como é o seu processo de criação literária?

Não sei se tenho processo de criação. Brinco dizendo que não sou eu quem escreve meus livros, mas eles é que me escrevem. Convivo longamente com histórias, sem tomar notas, vou criando e recriando o enredo no plano volúvel da memória.

Só me decido a escrever quando sei exatamente como será a primeira frase, que me levará ao primeiro capítulo. E na hora que o escrevo, já antevejo o último. Entre um e outro, sou possuído pela narrativa, que me transportará para aquele ponto que minha imaginação determinou. Vou escrevendo sem maiores planos, mas sempre com rapidez, sem reler nada.

Sou da família de Julio Cortázar, que acreditava que devemos sempre escrever com a idéia um pouco à frente da palavra. Em um romance, trabalho oito/dez horas por dia, todos os dias, trancado em meu escritório que, intencionalmente, não tem janelas.

Assim, vivo dentro da história, uma história que está sempre na dianteira, obrigando-me a digitar rápido para acompanhá-la. No final, depois que o romance me escreveu, pois sou o texto escrito, invertem-se os papéis - eu assumo o

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