Titular da pasta dos Negócios Estrangeiros de Portugal fala à Rádio ONU antes de seu discurso no Conselho de Segurança sobre desenvolvimento e paz; Amado também comentou situação na Guiné-Bissau, no Timor-Leste e a difusão da língua portuguesa no mundo.
Luís Amado
Nesta sexta-feira, 11, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Luís Amado, discursa no Conselho de Segurança da ONU sobre um dos temas que conhece bem: a relação de interdependência em segurança e desenvolvimento.
Em sua sólida carreira política, Amado já chefiou pastas nas duas áreas. Hoje, como ministro do Exterior português, ele comanda uma diplomacia respeitada e bem-sucedida em sua interação com a União Europeia e nos laços de cooperação que mantém com a União Africana. Portugal também investe pesado na estabilização de ex-colônias como a Guiné-Bissau e o Timor-Leste.
Grandes Temas
Sob a liderança de Luís Amado, seu país conseguiu um assento rotativo no Conselho de Segurança, onde ajudará a moldar todos os grandes temas da agenda do órgão até 2013.
Luís Amado e Ban Ki-moon
Antes de falar ao Conselho, Amado gentilmente concedeu uma entrevista à Rádio ONU em Nova York.
Ele respondeu perguntas sobre cooperação internacional, impasses politicos na África como o de Cote d'Ivoire, também conhecida como Costa do Marfim, e a situação da província de Darfur, no Sudão.
Futuro
Amado discorreu com propriedade sobre os desafios da Guiné-Bissau, cujos desafios políticos conhece desde o início, e mostrou-se otimista ao falar do futuro do país de língua portuguesa.
Sobre a preocupação latino-americana com a crise econômica europeia, e as consequências no mercado que conta com investidores portugueses e espanhois, Amado respondeu que a crise mundial afetou a zona do euro, e que o continente está debatendo soluções. "É no fundo, um problema do euro e da necessidade que todos sentimos de reforçar as condições de sustentabilidade e de estabilidade da moeda comum europeia. Isso passa, necessariamente, por reforço da união econômica. Sem uma união econômica mais forte não haverá condições para estabilidade de uma moeda comum."
Proposta
Luís Amado e José Sócrates
Ao encerrar a conversa de 25 minutos, o ministro falou sobre um plano de ação dos países de lingua portuguesa para difundir o idioma no mundo. A proposta que nasceu com a presidência portuguesa da CPLP, em 2008, pretende elevar o status do idioma em organizações internacionais principalmente as Nações Unidas.
Segundo Luís Amado, o português é "hoje uma língua de profundidade e vocação universal. A seu tempo, o sistema das Nações Unidas fará justiça a uma língua que tem essa dimensão e essa profundidade universal. E passará a utilizá-la muito mais também no dia-a-dia de suas atividades, de suas agências de suas organizações".
Acompanhe a entrevista do ministro de Negócios Estrangeiros de Portugal, Luís Amado, à Rádio ONU.
Tempo total: 21:10"
Trechos da Entrevista:
Sobre Interdependência Desenvolvimento e Segurança
José Filipe Moraes Cabral e Luís Amado
"Nós temos muito interesse nesse debate. Há muito tempo vimos debatendo para que haja mais coerência na abordagem dos planos da segurança e dos planos do desenvolvimento. Houve, durante muito tempo, muita dificuldade em conseguir refletir sobre essas duas problemáticas de forma coerente. E mais do que isso, houve muita dificuldade em agir politicamente. No sentido de garantir que houvesse coerência entre as medidas de segurança fundamentais para qualquer processo de desenvolvimento, e as medidas de desenvolvimento fundamentais para garantir as condições de segurança pudessem ser assumidas em processos de estabilização de conflitos e mais do que isso em prevenção de conflitos em regiões importantes, onde esses problemas funcionam de forma muito dependente. Lembro-me que quando era ministro do Desenvolvimento e levantava essa questão com meus colegas europeus isso era um tabu. (...) Este debate é sobre um tema que está muito na ordem do dia. Felizmente hoje, as concessões mais avançadas em matéria de política e desenvolvimento tem muita em consideração essa necessária interdependência entre essas duas dimensões fundamentais na estabilização de qualquer país e qualquer região. E é com grande oportunidade que a presidência brasileira introduziu esse tema na agenda do Conselho de Segurança."
Guiné-Bissau em 2011
Amado nos estúdios da Rádio ONU em 2009
"Eu acredito que o processo de transição que está em curso é algo que está em desenvolvimento. Depois dos problemas que houve no passado mês de abril de 2010 e das mudanças violentas que ocorreram na sua estrutura militar, o processo de diálogo interno entre órgãos legítimos eleitos, como são o primeiro-ministro e o presidente da República, com essas estruturas militares e a capacidade que tem evidenciado, para apesar de tudo, manter uma agenda de reforma do setor de segurança e defesa como prioridade para o país, se essa prioridade se mantiver, eu ainda acredito que o ano de 2011 pode ser, definitivamente, o ano de transição".
Sobre a Crise Econômica Europeia
"Como sabe, a União Europeia na sequência da crise que o mundo conheceu, teve um particular impacto das expectativas que os mercados criaram em relação à sustentabilidade do euro. É sabido que o euro exprime uma união monetária sem uma verdadeira união econômica e política, e por isso, uma união monetária imperfeita. Num período de grande agitação e turbulência dos mercados financeiros na sequência da crise, não poderia de suscitar também grande reserva da parte dos mercados. E por isso, que se tem estado a passar com as chamadas economias periféricas com mais problemas de desequilíbrios macroeconômicos na sequência da crise. É no fundo, um problema do euro e da necessidade que todos sentimos de reforçar as condições de sustentabilidade e de estabilidade da moeda comum europeia. Isso passa, necessariamente, por reforço da união econômica. Sem uma união econômica mais forte não haverá condições para estabilidade de uma moeda comum. Isso também é dos manuais de economia. Creio que as decisões do último Conselho Europeu, em Bruxelas, e as orientações que apresentaram os principais governos, relativamente à preparação de decisões do Governo Econômico Europeu para o Conselho de março são, seguramente, um caminho irreversível para a estabilização da situação na zona euro, independentemente de alguns problemas que algumas economias possam continuar a ter na avaliação que é feita de suas condições de sustentabilidade".
Parte 1