A Associação de Ex-Presos Políticos do Uruguai está divulgando um comunicado contra a vontade demonstrada pelo governo de esquerda do presidente Tabaré Ramón Vázquez Rosas, no sentido de cumprir com o estipulado na Lei de Caducidade, que isenta guerrilheiros e militares de penas de prisão. A entidade afirma que é necessário realizar algumas precisões "tendentes a refrescar memórias ou, simplesmente, aportar informação para quem necessite".
Segundo o comunicado, a partir de abril de 1972, quando as Forças Armadas assumem a repressão contra os grupos que empreendiam a luta armada, e, até 1985, quando se reinstala a democracia cercada em meados de 1973, a prisão, o exílio ou a morte foi o destino de dezenas de milhares de uruguaios perseguidos pelo regime. Não menos do que 15 mil uruguaios sofreram "agressões físicos", o que equivale a dizer que foram torturados pelas Forças Armadas e policiais entre 1972 e 1985.
"Queremos dizer que essa pessoa era objeto de tormentos físicos e psicológicos pelo tempo que seus torturadores dispusessem: dias, semanas, meses, até anos durou, em alguns casos o regime de tortura empregado", diz o texto. A instituição descreve as principais formas de tortura. São elas: sessões de caldo ou submarino, ou seja, imersão em água próxima à asfixia; sessões de picada elétrica, choques de eletricidade aplicados em diferentes partes do corpo, preferencialmente em zonas sensíveis, como genitália, axilas, orelhas, etc; uma barra de ferro onde à força era colocado o prisioneiro, nu, sem nada atrás e sem apoio de seus pés no solo, de maneira que o ferro fosse incrustando cada vez mais entre suas nádegas; golpes de diferentes naturezas, freqüência ou sistematização, infligidos por uma ou por várias pessoas por vez; manutenção do prisioneiro durante horas suspenso de seus braços; pernas separadas, braços estendidos na altura dos ombros, sem água, nem alimento durante horas, dias, semanas, até cair exausto.
A Associação declara que não compartilha com a limitação do governo quanto à verdade e justiça que supõe a lei de caducidade. Para eles, é inaceitável que se proponha, hoje, sentar todos na mesma mesa para compartilhar culpas, responsabilidades ou verdades ocultas. "Não vamos pedir desculpas por ter sido torturados". Se exige que as Forças Armadas, como no Chile e Argentina, aceitem a responsabilidade por seus crimes e proponham ao Executivo a anulação da Lei de Caducidade.
Segundo a imprensa uruguaia, advogados de organizações de direitos humanos apresentarão, no próximo mês de setembro, uma causa contra os oficiais generais que ocuparam o Ministério do Interior durante a ditadura militar e contra seus civis sub-secretários. A causa contra os comandos da ditadura cívico-militar incluirá sete comandantes-chefes do Exército, cinco da Força Aérea e três da Armada, além dos militares e civis que estiveram a cargo das forças policiais ou comandaram as chefaturas de Polícia de todo o país.