Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Ex-Libris ou a arte de personalizar os livros

Por Adelto Gonçalves - O poeta Alberto da Cos­ta e Silva diz que há muitas maneiras de a­mar os livros, mas a mais estranha que conheceu seria a de um amigo seu que, à medida que os lia, arrancava as suas páginas e as pu­nha no lixo. Não revela o nome do amigo, mas este articulista sabe de um leitor bem famoso que, em vez de arrancar as páginas uma a uma, manda o livro lido para o cesto do lixo.

Sábado, 23 de Agosto de 2014 às 12:20, por: CdB
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Colunista conta a surpreendente revelação que lhe fez o escritor espanhol Eduardo Mendoza
 O poeta Alberto da Cos­ta e Silva diz que há muitas maneiras de a­mar os livros, mas a mais estranha que conheceu seria a de um amigo seu que, à medida que os lia, arrancava as suas páginas e as pu­nha no lixo. Não revela o nome do amigo, mas este articulista sabe de um leitor bem famoso que, em vez de arrancar as páginas uma a uma, manda o livro lido para o cesto do lixo. “O que fazes com os exemplares lidos?”, perguntei-lhe, certa tarde fria de janeiro de 1990, à mesa do Café Samoa, no Paseo de Gracia, quase em frente à insólita Casa Milà, mais conhecida como “La Pedrera”, uma das mais estranhas entre as obras com que o arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926) embelezou a Barcelona da belle époque. “Los tiro a la basura”, disse-me, sem pestanejar, acrescentando que preferia ficar com as imagens suscitadas pela leitura do que encher o seu apartamento de livros e mais livros, muitos dos quais recebia sem que os pedisse. Para quem ainda não descobriu quem é esse leitor voraz deve-se dizer que tal estranho amante dos livros é hoje considerado o maior ficcionista em atividade da Língua Espanhola, ainda que seja catalão. Seu nome: Eduardo Mendoza (1943), autor de “La Ciudad de Los Prodígios”, “La Verdad Sobre el Caso Savolta”, “El Misterio de la Cripta Embrujada”, “La Isla Inaudita”, “El Año del Dilúvio” e “Una Comedia Ligera”, entre outros livros que vendem aos milhares no mundo de língua hispânica. Mas a que vêm estas reminiscências de mais de duas décadas? Vêm a propósito do recente lançamento do “Livro dos Ex-Líbris”, de Alberto da Costa e Silva e Anselmo Maciel (organização), publicado pela Academia Brasileira de Letras e pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com apoio cultural do Ministério das Relações Exteriores. No prefácio que escreveu para esta obra, Costa e Silva lembra de outros colecionadores bizarros, a exemplo daquele que não deixava rastros do que lia por ciúme de que o mesmo exemplar tivesse outros leitores. Há alguns menos bizarros, como aqueles que costumam assinar o nome na folha de rosto do livro adquirido. Ou ainda aqueles que mandam fazer um carimbo para marcar como seus todos os exemplares de sua biblioteca, talvez para incomodar os que pedem livros emprestados e não costumam devolvê-los. Há, porém, observa o poeta, uma maneira mais antiga e requintada de assinalar a posse do livro: o ex-líbris, que pode ser um selo a ser colado igualmente na folha de rosto ou na contracapa. É dessa mania de alguns poucos e zelosos bibliófilos que trata este livro que, a rigor, nasceu a partir da mostra “O barão do Rio Branco, colecionador de ex-líbris”, realizada em abril de 2012 nos salões da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. O chanceler José Maria da Silva Paranhos (1845-1912), o barão do Rio Bran­co, homem público a quem o Bra­sil muito deve por ter as fronteiras que tem hoje, teria sido o primeiro ex-librista brasileiro de quem se tem notícia. Em suas andanças pela Europa, costumava reunir uma extensa coleção de obras raras nas quais sempre pespegava seu ex-líbris. E mais: muitos dos livros de sua biblioteca traziam o ex-líbris de outros bibliófilos, o que o levou a fazer a coleção que ho­je pertence ao acervo da Bi­bli­oteca do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro. Adelto Gonçalves, jornalista, trabalhou no Estadão, Folha de São Paulo, Editora Abril e A Tribuna de Santos. Professor universitário, doutor em Literatura Portuguesa pela USP, autor dos livros Os Vira-latas da Madrugada, prêmio José lins do Rego, da José Olympio Editora; Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, Barcelona Brasileira, Bocage – o Perfil Perdido e Tomás Antônio Gonzaga. Ganhou em 1986, o prêmio Fernando Pessoa, da Fundação Cultural Brasil-Portual. Professor universitário de literatura em Santos, na Universidade Paulista, Unip, e na Universidade Santa Cecília, Unisanta. Direto da Redação é editado pelo jornalista Rui Martins.
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