A oposição venezuelana lutará até o final para derrubar o presidente Hugo Chávez de forma pacífica, usando votos em vez de balas, disse hoje um ex-guerrilheiro marxista que hoje comanda os esforços pela convocação de um referendo. "O que está encurralando Chávez? O caminho das eleições, que o coloca contra as cordas. Devemos ir até o final nesse caminho", afirmou Pompeyo Márquez, de 82 anos.
Pelo menos nove pessoas morreram nos últimos dias em confrontos contra militares, durante manifestações nas quais a oposição pede a realização de um referendo para abreviar o mandato de Chávez. Esses incidentes provocaram alarme entre entidades de direitos humanos e trouxeram a crise venezuelana de volta ao noticiário mundial.
Márquez, um ex-guerrilheiro comunista que abandonou a luta armada em estilo cubano no final da década de 1960, disse que a oposição, por estar dividida, não tem condições de lançar uma rebelião nacional contra Chávez. Ele acha que também não há clima para repetir a greve geral que tomou conta do país entre o final de 2002 e o começo de 2003. "Sim, estamos negociando. Estamos defendendo cada uma das assinaturas para transformá-las em votos", afirmou.
A oposição recorreu na terça-feira à Suprema Corte para tentar reverter uma decisão do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), que exige a confirmação de 1,1 milhão de assinaturas consideradas duvidosas na petição.
A oposição diz ter entregado mais de 3 milhões de assinaturas em prol do referendo, mas só 1,8 milhão delas foram aceitas. A Constituição exige 2,4 milhões de firmas para a convocação do referendo e, portanto, a reconfirmação das assinaturas duvidosas pode bastar.
Mas a oposição, que acusa o CNE de se aliar a Chávez, quer que o processo de confirmação seja facilitado. "O referendo ainda está vivo. Enquanto estivermos discutindo com o CNE, ele não estará morto", afirmou Márquez.
O CNE quer que os próprios eleitores confirmem as assinaturas em um período de dois dias. A oposição quer pelo menos quatro dias para isso e exige também acesso irrestrito dos observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Carter Center ao processo. Essas entidades criticaram os critérios usados pelo CNE para questionar as assinaturas.
Márquez participou da rebelião popular que em 1958 derrubou o último ditador da Venezuela, Marco Pérez Jimenez. Ele acha que o uso de tropas contra as recentes manifestações abalou a imagem que Chávez tenta criar de si mesmo, a de um revolucionário que age em favor dos pobres. "A imagem do governo foi prejudicada, porque parece repressiva, sangrenta e fraudulenta", disse ele. "Se não houver referendo, Chávez perde sua legitimidade".
O presidente, um ex-pára-quedista do Exército que em 1992 liderou um frustrado golpe de Estado, mas se elegeu pelo voto seis anos depois, acusa seus adversários de organizarem uma "subversão armada", com apoio dos EUA, para derrubá-lo. Washington nega a acusação.
Márquez disse que os ataques de Chávez aos Estados Unidos são uma tentativa "delirante" de desviar a atenção do público do referendo. O ex-guerrilheiro, que mostrou fotos em que aparece ao lado do chinês Mao Tse-tung e do cubano Fidel Castro, criticou a Revolução Bolivariana de Chávez, que ele considera um político autoritário. "Ele não tem ideologia", disse Márquez. "A liderança dele é um cozido, um coquetel".