Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 2026

Ex-Fazenda Eldorado. Após queda de um império pessoal, camponeses trilham sonhos na terra

Segunda, 04 de Julho de 2011 às 12:54, por: CdB

Campo Grande/MS, 4 de julho de 2011

Os morcegos saem voando desorientados, trocando seusaprazíveis descansos por barulhos e estampidos no ar. São interrompidos em seussossegos diurno no quarto contiguo que ocupam na mansão rural em decadência.Algumas das pessoas que matavam aquele dia a curiosidade acompanham a saideirados vivíparos também quase em aças. A cena de susto é recíproca. Porém, talvez,o mais assustador para quem não imagina com que surpresas vai se deparar numroteiro improvisado pela ex-fazenda Eldorado é o canil que faz parte daestrutura do palácio abandonado. A ex-morada de ferozes cães poderia serfacilmente comparada em custo com o que hoje possui a chamada "a nova classemedia”, ou com os modelos erguidos para "minha casa, minha vida”. Ela temrefugio para seis esplêndidos guardiões de raça...e dos grandes! A coisa émesmo estar ai e do restante a imaginação se encarrega sem esforço. O cenárionão convida precisamente para tramas de romance. O vento recolhe do passadomatilha de famintos e roda de pistoleiros.

O "encantamento” da Fazenda Eldorado é muito forte. Sua famatranscende os limites da pequena Sidrolândia. Esta comarca ostenta hoje otítulo de município com maior numero de assentamentos no Mato Grosso do Sul etalvez do Brasil. Fica 60 km de Campo Grande. Da cidade de Sidrolândia, 26 kmde terra batida e pedregulhos levam ao coração da ex-fazenda. Em 2008 foi cenário da maior parte daprodução do filme "Cabeça à prêmio”, longa metragem que conta historias depistolagem, traição, e fazendeiros vinculados a negócios de trafico de droga naregião de fronteira do Brasil com o Paraguai. A ex-fazenda foi escolhida dentremais de 50 fazendas visitadas pela equipe de produção do filme. "As vezes asede era bonita, mas o local não combinava, as vezes o local era bonito mas asede não era o que precisávamos. Quando conhecemos a Eldorado não tivemosdúvidas. Ela era ideal para as gravações”, dizia naquele tempo o ator MarcoRicca, quem estreava como diretor. Os padrões de Eldorado, ainda avistada emsua atual condição de antigo império rural abandonado é de arrepiar. Umverdadeiro monumento à arrogância. Ai tudo é premeditadamente ostentoso. Atéseu gigantesco e maravilhoso lago artificial. Os muros gravados com símbolos dafazenda e os ferros artisticamente trabalhados alem de servir como bunker deproteção aos salões e jardins interiores luxentos da mansão, repelem aconsciência pela sua própria natureza advinda da linhagem oligárquica elatifundiária. O velho "mangueiro” real conserva uma passarela pendurante que serviade observatório para o "rei do gado”. Porém, Eldorado, nos seus anos douradostinha além do palácio rural e a cidadela que albergava aos funcionários dafazenda, 28,6 mil hectares em volta da sede.As que antes eram trilhas exclusivas que conduziam ao frenesi dosnegócios do gado, hoje movimentam nos seus trechos a milhares de agricultoresfamiliares.

Simplicidade e açãoprofética

Uma flor de maracujá desabrocha baixo o sol. Na folhagem deplanta pousa um enxame de abelhas. Milagre da natureza como este se repetem nosquintais dos vários assentamentos no que hoje está dividida a ex-fazenda. Aluta das famílias camponesas com suas diversas organizações gera vida ealimentos em aproximadamente 2.300 lotes. Os pomares vão enchendo. Esforços etrabalhos individuais e coletivos brotam do chão colorindo as esperanças dostrabalhadores rurais. Apóio sempre é preciso. O que existe de parte do Estadonão é suficiente para segurar todo o mundo acima da terra tempo integral.Penosamente muitos camponeses e muitas camponesas, por falta de alternativas,saem do assentamento para buscar garantir o seu sustento fora dele. Dosgigantes do etanol, sanguessugas da terra, da água e do homem, também amicrorregião se orgulha na mídia e nos discursos. Um setor que parece sempreestar torcendo para que as experiências camponesas não dêem certas, pois, assimele pode dispor com mais facilidade do exercito de homem e mulheresnecessitados de vender sua força de trabalho para sobreviver. Uma dasorganizações que apoiou a luta pela terra nesta região do Estado é a ComissãoPastoral da Terra. A CPT/MS agora busca incentivos para o agricultor permanecernela. A entidade busca continuar suaação profética junto às famílias dos assentamentos da ex-fazenda Eldorado. Geração de renda, auto-estima, resgate dacultura camponesa, viver bem do que produze a terra, melhorar as experiênciasboas, contribuir na organização e elevação da consciência dos agricultores,apresentar alternativas na organização da propriedade e ao uso de produtos químicosnos quintais, são temas e desafios que no meio da simplicidade os agentes daCPT/MS vêm conversando com muitas famílias desses assentamentos.

Baru, mangaba, jatobá, guaivira, macaúba, marolo, cambará,são algumas das árvores nativas que seguem em pé nos assentamentos daex-fazenda. Eles vão despertando na fala da irmã Lucinda Moretti, coordenadorada CPT/MS, frases de amor à terra e a natureza. Ela e outros agentes daentidade vão interagindo em busca de novos sonhos com os agricultoresfamiliares da ex-fazenda Eldorado. "Olha o gavião subindo com uma comidinha!olha o tucano! olha as araras!”, são as frases de admiração que voltam com odespertar do ambiente rural camponês, que oferece alimentos e proteção ànatureza. A partilha daquele dia deu para conhecer, por exemplo, seu Gasparin.Ele migrou do Paraná, ganhou a terra e com os pés firmes no chão espalha seusconhecimentos empíricos no seu quintal bem produtivo. "O que for de produção derenda eu mexo”, partilha animadamente e muito feliz. Atitudes como essa, aindaem meio de muitas necessidades, abundam nessa terra de centos de famílias;realidade que contrasta com a ex-unidade privada da mega-sede de uma famíliasó. Mais contente ainda fica o agricultor familiar Carlos Alberto Gasparinquando o pessoal da CPT descobriu com ele que no seu sitio têm ervas que podemcombater alguns bichos que atacam seu pomar e evitar a compra e o uso deagroquímicos. Ele foi pegar uma do fundo do quintal. Era mesmo o remédio queprecisava. Sua animação e simplicidade contagia e faz acreditar ainda mais queoutro tipo de agricultura e outra relação com a terra são possíveis e que valea pena lutar por esses paradigmas.

[Fonte: CPT/MS]

Tags:
Edições digital e impressa