O ex-diretor geral da BBC, Greg Dyke, que renunciou na quinta-feira por causa do relatório Hutton sobre o caso Kelly, denunciou neste domingo pressões sistemáticas do Governo de Tony Blair sobre a rede pública durante a cobertura da guerra no Iraque.
Em declarações ao jornal The Sunday Times, Dyke afirmou que Alastair Campbell, ex-diretor de comunicação do primeiro-ministro e que, como este, foi eximido de responsabilidade pelo juiz Brian Hutton, pressionava a rede para que esta reproduzisse sua versão dos fatos. "Sistematicamente pressionava os jornalistas que se negavam a reproduzir sua versão dos eventos", disse.
Segundo Dyke, Campbell declarou uma guerra de desgaste à corporação pública em um momento em que esta tentava informar bem e de forma imparcial sobre uma notícia difícil. Dyke assegurou que várias vezes o amigo íntimo de Blair negou informações que depois descobria-se serem corretas. Sua negativa, afirmou na entrevista, com freqüência só significava que ele não queria que a notícia em questão fosse divulgada.
Dyke, que desde que deixou seu cargo não parou de atacar o Governo e o relatório Hutton, falou ainda sobre uma carta que escreveu em março em resposta a outra do primeiro-ministro, na qual este criticava a cobertura da guerra por parte da BBC. Em sua carta, publicada por The Sunday Times, Dyke diz a Tony Blair que o Governo não tinha autoridade para falar de imparcialidade quando era parte envolvida, tendo sido duramente criticado por sua participação na invasão.
Também lhe adverte que apesar de Blair querer que o público fosse informado sobre sua visão particular do mundo, a BBC tinha que transmitir uma informação equilibrada. "Sua crítica a toda a BBC - rádio, televisão e internet, porque o preocupa que a rede divulgue notícias que não o favorecem - é injusta", escreveu Dyke.
Em outra entrevista divulgada hoje pela BBC, Dyke assegura que não queria renunciar a seu cargo, mas que teve de fazê-lo depois de a junta de governadores da corporação lhe retirar sua confiança. A mesma junta pensou em um primeiro momento em renunciar em bloco devido às conclusões desfavoráveis do relatório Hutton, mas Dyke instou seus integrantes a não fazê-lo para não deixar a BBC acéfala. Depois os governadores, presididos pelo conservador Richard Ryder, aceitaram sua renúncia.
Em suas declarações, o ex-diretor geral, muito querido pelos trabalhadores da rede pública britânica, questiona o relatório de Brian Hutton e afirma que seus próprios advogados encontraram erros nele. Por isso, pode procurar formas de questioná-lo.
O juiz Hutton considerou infundada uma notícia da BBC que acusou o Governo de ter manipulado informação sobre o Iraque para justificar a guerra, e qualificou como defeituoso o sistema de controle editorial da rede pública. A fonte dessa notícia foi o cientista David Kelly, que se suicidou no dia 17 de julho depois de o ministério da Defesa passar seu nome à imprensa. O magistrado eximiu o Governo e Campbell de qualquer responsabilidade em relação ao caso.