Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Ex-aliado de Sarney, Heráclito Fortes cobra explicações sobre mansão

Ex-aliado de longa data, o primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI) disse, nesta sexta-feira, que pretende ouvir as explicações do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), sobre o motivo de não ter declarado à Justiça Eleitoral uma casa avaliada em R$ 4 milhões. (Leia Mais)

Sexta, 03 de Julho de 2009 às 08:37, por: CdB

Ex-aliado de longa data, o primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI) disse, nesta sexta-feira, que pretende ouvir as explicações do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), sobre o motivo de não ter declarado à Justiça Eleitoral uma casa avaliada em R$ 4 milhões.

– Essa é uma questão que tem de ser feita mesmo. E espero que ele responda o mais rápido possível. Não tenho a mínima ideia se a casa é dele, se pertence aos filhos ou a quem pertence – completou.

Matéria publicada na edição desta sexta-feira do diário paulistano O Estado de S. Paulo denuncia que Sarney ocultou a propriedade da Justiça Eleitoral nas duas eleições que disputou depois da compra do imóvel – em 1998 e 2006. Heráclito ainda comentou a interferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que Sarney não se afaste do cargo.

– Eu acho que Lula está agindo em defesa de seu próprio governo, já que o presidente do Senado estabiliza o governo do PT – afirmou.

O presidente Lula jantou com integrantes do partido, nesta quinta-feira, mas não conseguiu unir a legenda, que se mantém dividida quanto ao apoio a José Sarney.

– O PT a gente não entende. De manhã está contra e de tarde está a favor. A partir desse jantar (desta quinta-feira), que deve ter sido pedagógico, o PT vai definir o que fazer – disse o integrante do DEM.

Aumenta a pressão

O presidente do Senado pretende explicar, por meio de nota a ser divulgada nas próximas horas, o porquê de ter escondido a propriedade da mansão situada na Península dos Ministros, uma das áreas mais nobres da capital federal. O fato, no entanto, serviu para aumentar a pressão para que Sarney se afaste do cargo. Ao Estadão, a assessoria de Sarney informou a existência de um "erro do técnico que providencia a documentação do presidente Sarney junto aos órgãos competentes". Afirmou ainda que o imóvel consta das "declarações anuais de Imposto de Renda do presidente, entregues também ao TCU (Tribunal de Contas da União) com frequência anual".

A situação de Sarney se agravou quando o PSOL não apenas pediu o afastamento dele da direção da Casa como ingressou com uma representação na qual pede que ele seja investigado no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Outro fato que serviu de alento para a oposição foi a denúncia de que José Adriano Sarney, neto de Sarney, é proprietário de uma das empresas que trabalha com empréstimos consignados para funcionários do Senado. Existe a suspeita de que José Adriano foi beneficiado nas negociações com a instituição. Sarney e José Adriano divulgaram nota negando que a relação familiar tenha sido lucrativa para a empresa.

Segundo a representação do PSOL, há 15 pessoas ligadas diretamente ao presidente do Senado que teriam sido beneficiadas pelos chamados 'atos secretos', entre eles, o seu neto João Fernando Sarney, nomeado para o gabinete do senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA).

Alento

Um dia depois de o governo entrar em campo para preservar José Sarney (PMDB-AP) na presidência do Senado, integrantes da oposição e da base aliada afirmaram na véspera que diminuiu consideravelmente a possibilidade de o senador renunciar ao cargo. DEM, PSDB e PDT continuam a pedir que Sarney se afaste do cargo até a conclusão das investigações sobre fraudes na administração da Casa, enquanto o PT recuou de um pedido de afastamento após ser enquadrado pelo Planalto.

Líderes do PT chegaram a sugerir, na quarta-feira, em reunião reservada com Sarney, que ele se licenciasse por 30 dias, mas voltaram atrás a fim de preservar a aliança com o PMDB – partido essencial para garantir a governabilidade do Executivo no Senado e uma base de apoio para a futura candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência da República.

– Ele nunca foi homem de renúncia. O perfil dele é de acumular poder. Ele tem apetite por poder. Essa é a alma do oligarca – afirmou a jornalistas o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), que também foi envolvido em denúncias sobre as irregularidades na Casa.

Na véspera, diante da resistência dos petistas em sinalizar um apoio explícito ao senador, aliados de Sarney espalharam a informação que o presidente do Senado não se afastaria, mas poderia deixar o cargo definitivamente se fosse abandonado, por meio de uma renúncia. Na avaliação de aliados, embora ainda vulnerável a possíveis novas denúncias, Sarney está agora em uma posição relativamente mais confortável.

O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), voltou a dizer nesta quinta que a bancada não pretende gerar um racha na base de sustentação do governo no Congresso. Mercadante, que ocupou a tribuna por mais de três horas, argumentou que Sarney não pode ser apontado como único culpado pela crise, e passou a atacar a oposição. Segundo ele, o DEM também tem responsabilidade pelas denúncias porque tem ocupado nos últimos anos a primeira-secretaria da Casa, cargo responsável pela gestão da instituição.

– Minha combatividade está a serviço do presidente Lula – disse Mercadante.

Esse discurso foi adotado pelo PT depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou durante viagem ao exterior que a oposição queria tomar o controle do Senado ao forçar a saída de Sarney, já que o primeiro vice-presidente é o senador Marconi Perillo (PSDB-GO).

– Eles estão tentando desviar o foco – rebateu o líder do DEM, José Agripino Maia (RN).

Durante o dia, Sarney esteve no Senado e, sem presidir a sessão, recebeu outras demonstrações de apoio. Pela manhã, recebeu visita do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O senador também conversou com o presidente Lula por telefone. Lula, que retornou da Líbia na noite de quarta-feira, se reunirá com a bancada de senadores do PT nesta noite para tratar da crise do Senado, e deve se encontrar com Sarney na sexta-feira.

Apesar do cenário mais favorável a Sarney, sua permanência no cargo pode acirrar o clima de disputa entre governo e oposição.

– A crise vai se prolongar – ameaçou Virgílio. O calendário, no entanto, trabalha a favor de Sarney. O recesso dos parlamentares tem início em duas semanas.

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