A União Européia ofereceu ao Brasil a chance de exportar mais etanol para os 27 países do bloco, como parte das iniciativas para tentar destravar as negociações da Rodada de Doha de comércio global. Em troca, a UE exigiria mais acesso aos mercados brasileiros, segundo o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson.
– Surpreendentemente, devido à importância dessa questão em Brasília, (o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso) Amorim pareceu minimizar o valor de tal oferta para o Brasil – escreveu Mandelson em seu blog.
A UE espera que grandes economias emergentes, como o Brasil, se abram mais a produtos industriais. Mandelson não deu detalhes sobre a oferta bilateral da UE ao Brasil, mas um diplomata disse que ela representaria a oportunidade de exportar quase 1,4 milhão de toneladas de etanol por ano para o bloco até 2020, sob uma tarifa menor do que o imposto-padrão, em torno de 40%.
A delegação brasileira afirma que desconhece a informação e acusa o negociador europeu de tentar "causar intrigas".
– É preciso ver a que tipo de proposta Mandelson se refere. Amorim já tinha falado que desconfiava que a UE tentaria estabelecer cotas para o etanol (o que limitaria a quantidade do produto que poderia ter acesso ao mercado europeu com tarifas reduzidas). Se essa foi sua proposta, então é lamentável – disse um integrante da equipe brasileira.
Momento crítico
O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, alertou, nesta sexta-feira, que as negociações da Rodada Doha atravessam um "momento crítico" e irão fracassar se não houver uma mudança radical na posição dos principais negociadores. Segundo Lamy, é preciso que os representantes consigam um "rápido progresso".
– A não ser que as posições mudem, e radicalmente, o acordo que todos vocês vieram fechar aqui esta semana não será possível, com todas as consequências que isso possa implicar – afirmou Lamy, segundo seu porta-voz, Keith Rockwell.
De acordo com o diretor geral, as negociações estão "em um momento crítico" e a aproximação das posições é "dolorosamente lenta depois de uma semana de reuniões a nível ministerial".
– Temos que mudar de marcha para aproveitar o pouco tempo que sobra – enfatizou o diretor em seu alerta aos cerca de 30 ministros reunidos em Genebra.
Flexibilidade
Lamy espera que Estados Unidos e União Européia melhorem suas ofertas de redução de subsídios e corte de tarifas de importação no setor agrícola.
Ele também pede que os países em desenvolvimento, liderados por Brasil e Índia, sejam flexíveis no capítulo industrial em relação às cláusulas anti-concentração. Lamy espera também maior flexibilidade nos acordos setoriais com os quais se incentivaria um corte mais alto nas tarifas de setores específicos – algo que os americanos querem tornar obrigatório.
Ao chegar à sede da OMC nesta sexta-feira, Celso Amorim voltou a dizer que era o dia do "vai ou racha".
Ainda assim, o ministro estava bem-humorado. Questionado sobre sua opinião acerca de um possível acordo nesta sexta-feira, Amorim disse que acreditava nessa possibilidade e enfatizou:
– Mas é que eu tenho muita imaginação – brincou.
Na miséria
O quinto dia de reuniões começa com apenas uma certeza: o Grupo dos Sete (Brasil, Índia, Estados Unidos, China, Austrália, Japão e a União Européia) volta a se reunir para tentar superar o impasse.
– O resto da agenda irá sendo definida durante o dia, dependendo do resultado dessa reunião – explicou Rockwell.
Segundo o porta-voz, o criticismo acerca desse sistema diminuiu, já que os demais países entenderam que o grupo restrito "reúne, em uma mesma sala, 80% do comércio mundial".
Ainda assim, os dez ministros africanos que participam das negociações cobraram que o Grupo dos Sete assuma as responsabilidades de sua liderança.
A África é responsável por menos de 3% do comércio mundial e os ministros do continente culpam os altos subsídios dados por países ricos de ameaçar sua produção agrícola e torná-los dependentes de ajudas externas.
– Estamos aqui desde domingo, sendo pacientes. Mas é preciso que o G7 entenda que as questões que tem diante não são apenas seus interesses, e sim os interesses e as necessidades de todos nós – disse o ministro de Comércio do Kênia, Uhuru Kenyatta.
Seu homólogo de Burkina Faso, Mamadou Sanon, reclamou que a questão dos altos subsídios que Estados Unidos dão aos produtores de algodão ainda não tenha sido tratada.
– Os ministros dos países ricos podem negociar durante o tempo que quiserem, mas nós não podemos esperar eternamente. A indústria do algodão em meu país, da qual dependem milhares de vidas, está desaparecendo, e isso está aumentando a miséria – criticou.