Muitos amigos já ouviram esse meu texto nesse último verão, em várias mesas
de bares por onde passei: Andreas e Renata Curzel, por exemplo, foram por
mais de uma vez saudados com esse debate. Quero me referir ao que penso
sobre a necessidade de os Estados contemporâneos se firmarem radicalmente no
secularismo como forma de garantia mínima do respeito ao individualismo -
fundamento último de qualquer pessoa comprometida com o liberalismo.
Nesse ponto é que a França serve como matriz cultural no Ocidente, é o
bastião mais ostensivo da defesa intransigente da necessidade de o Estado
estar despojado de qualquer valor religioso específico como fonte normativa.
Não é por outra razão que é de lá que ouvimos o "l'ecrasser l'infame!" ou a
concepção política dos setecentos de que a sociedade haveria de se tornar
melhor quando "a última tripa do último burguês servisse de forca para
estrangular o último eclesiástico". A nação antagônica a essa postura
secular radical é a Arábia Saudita, reino que tem na própria bandeira
nacional a exaltação ao 'deus' abraçado pela maioria de sua crédula
população.
Vez por outra na agenda dos acontecimentos políticos internacionais
deparamo-nos com esse conflito em determinadas sociedades, como na Argélia
nos anos 90, quando em determinada eleição o partido islâmico (FIS, Frente
Islâmica de Salvação) ganhou o pleito e, como almejava transformar o país
numa república islâmica, foi impedido de formar governo por conta de golpe
militar apoiado por Paris e o Ocidente, a fim de garantir a laicidade do seu
governo. A tentativa de se formar um governo no Iraque, constatamos a
correta intransigência americana quanto à vedação de qualquer governo que
esteja associado aos religiosos, de quaisquer seitas. 'Dar a César o que é
de César' é questão que faz parte da gênese política de qualquer Estado, vez
que a religião é o fator por excelência para promover a unificação política
de quaisquer sociedades, em quaisquer partes do globo, em quaisquer momentos
históricos, através de valores morais que serão a forma mais legítima de
agregação cultural de um povo.
Reconhecer esse papel da religião não significa, contudo, considerar
legítimo que o Estado nacionalmente unificado continue a dela se valer como
forma de dominação política de uma determinada classe dirigente sobre toda a
diversidade cultural da sociedade.
Nesse sentido é que os liberais devem ser os mais empedernidos defensores da
secularização das relações entre Estado-cidadão, a fim de verem respeitadas
as diferenças que marcam os seres humanos em coletividade. E é e nesse
sentido que a França desempenha papel bastante significativo, simbólico até,
como por exemplo, com a recente e acertada proibição legislativa de uso de
véus por crianças muçulmanas em escolas da rede pública do país.
A razão de ser desse texto é para chamar a atenção para o quanto a França dá
sinais paradoxais quanto a essa sua histórica posição política secular
quando se ouve a informação de que a maioria da população é, em princípio,
contrária à adesão da Turquia à União Européia. Ora, embora a política
oficial de Bruxelas seja a de observar as evoluções democráticas naquele
país, cumpre realçar a esses recalcitrantes franceses e também a todos os
europeus que estejam com má-vontade para com Ancara, que num momento
histórico em que mais do que nunca foi tão importante a convivência com o
diverso, a oportunidade que se tem em se ter um país agregado à União
Européia com população majoritariamente muçulmana, que respeite os valores
democráticos essenciais como liberdade de expressão, e que seja secular
(desde 1923, o Kemal Atartuk) - nisso politicamente muito coincidente com a
França, tal oportunidade não pode ser perdida. Signifca para a Europa
assu
Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026
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