EUA se isolam e experimentam revés na guerra política mundial
Segunda, 08 de Setembro de 2003 às 18:56, por: CdB
O sucesso das campanhas no Afeganistão e no Iraque fortaleceu militarmente os Estados Unidos, mas a um alto custo: a potência governada por George W. Bush está mais isolada do que antes dos atentados de 2001. Nesse vácuo de poder, resta um mundo mais desordenado, violento e caótico. A análise é de Emir Sader.
Dois anos depois dos atentados de Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001, os EUA são mais fortes ou mais fracos?
A vulnerabilidade de segurança que permitiu os atentados poderia levar a pensar que são mais fracos. Porém, a fulminante resposta do governo norte-americano no ataque e ocupação do Afeganistão e na derrubada posterior do governo de Saddam Hussein revelam que a capacidade de ação dos EUA é irresistível e que os objetivos militares a que se propôs foram cumpridos. Assim, do ponto de vista militar, pode-se dizer que os EUA consolidaram sua predominância mundial.
No entanto, ao contrário do que manda a mentalidade predominante no governo Bush, à força militar não corresponde necessariamente uma força política. O preço a pagar por Washington ter agido unilateralmente na invasão do Iraque é uma demonstração a mais de que se pode fazer tudo com as baionetas, menos se sentar sobre elas.
Esse preço é mensurável a partir da necessidade de o governo dos EUA solicitar apoio à ONU, depois de ter negligenciado totalmente o papel da entidade, assim como ter tido de solicitar à França até mesmo auxílio militar e econômico. A negativa de Paris e de Berlim em participar da empreitada, sem a correspondente partilha das decisões políticas, é resultado da ação unilateral dos EUA, que ao mesmo tempo possui um efeito econômico: acentua a recessão interna com a quantidade elevada de recursos que o país tem de dirigir para a defesa e a reconstrução do Iraque.
Os EUA são, portanto, militarmente mais fortes, mas politicamente estão mais isolados do que em 2001. Mas se fizermos a pergunta "quem se fortalece com esse enfraquecimento norte-americano?", podemos enfocar a correlação de forças mundial em sua devida medida. Porque o predomínio de uma nação está baseado numa correlação de forças, isto é, na relação entre a força da potência dominante e das outras, potencialmente adversárias.
Nesse sentido, a força norte-americana atual se baseia, antes de tudo, na desaparição da outra potência mundial - a URSS -, assim como no enfraquecimento de Japão e Europa. Os EUA são mais fracos do que foram nas décadas anteriores à crise dos anos 70, mas têm hoje uma situação mais favorável - pelas razões mencionadas - do que naquele período.
Mas o enfraquecimento dos EUA não é capitalizado pelo Japão nem pela Europa. Esta se encontra dividida e sem líderes que tenham uma postura de construção de uma hegemonia alternativa à norte-americana. Em vários ramos da economia a capacidade competitiva norte-americana é menor do que a européia ou a japonesa, mas no seu conjunto, com potência imperial, com força econômica, política, militar, tecnológica, ideológica e propagandística, os EUA não encontram nenhum adversário à altura. Seu enfraquecimento leva mais ao aumento da desordem mundial, conforme o papel explícito de polícia do mundo a que se atribuem.
Esse deve ser o panorama mundial pelos próximos anos, na medida em que os atuais protagonistas não revelem capacidade de aglutinação para construir uma hegemonia alternativa. Podemos esperar então um mundo mais desordenado, violento, caótico, conforme os EUA percam capacidade de consenso e a substituam pelo uso da força e por um discurso militarizado.