Os Estados Unidos anunciaram seu apoio a um brasileiro para presidir uma conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre não-proliferação nuclear, apesar das preocupações de Washington com o enriquecimento de urânio no Brasil.
Autoridades norte-americanas anunciaram o apoio no final da noite desta terça-feira e disseram que o embaixador Sérgio Duarte, indicado para chefiar a conferência para a revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), em 2005, está totalmente qualificado para o cargo, embora o Brasil esteja dando um mau exemplo ao rejeitar inspeções em suas instalações nucleares. Ségio Duarte foi embaixador em Manágua, Ottawa, Genebra, Washington e Buenos Aires.
"Vamos dar apoio ao embaixador Duarte", disse o subsecretário de Estado John Bolton a jornalistas na ONU, onde 189 países signatários do TNP realizam uma reunião preparatória.
Ele afirmou que é importante que o Brasil resolva suas diferenças com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, um órgão da ONU), em parte para que "isso não traga desânimo à conferência de revisão no ano que vem".
Os signatários do TNP se reúnem periodicamente para discutir progressos no cumprimento do acordo, o que inclui a não-disseminação das armas nucleares e o desarmamento de países que já possuem arsenais atômicos.
A reunião preparatória que começou na segunda-feira em Nova York acontece em um momento tenso, por causa da revelação de que o cientista paquistanês Abdul Qadeer Khan vendeu segredos nucleares de seu país no mercado negro.
Além disso, os EUA e outros países acusam Irã e Coréia do Norte de desenvolverem clandestinamente bombas atômicas. A Coréia do Norte abandonou o TNP.
Na década de 1990, o Brasil renunciou a um programa militar secreto que poderia ter produzido urânio para bombas. O país firmou o TNP na qualidade de não-detentor de armas nucleares.
O Brasil já aceitou abrir suas instalações à AIEA, mas ainda discute qual será o grau de acesso dos inspetores à unidade de enriquecimento de urânio em Resende (RJ).
Em fevereiro e março, inspetores da AIEA foram proibidos de visitarem as centrífugas de Resende, porque o governo dizia que isso colocaria em risco seus segredos industriais.
Washington quer que o Brasil vá além de seus compromissos sob o TNP e assine o chamado Protocolo Adicional, que permite inspeções mais intrusivas e sem prévio aviso por parte da AIEA.
A escolha do presidente da conferência de revisão do TNP normalmente é feita por consenso, e os norte-americanos reconheceram que a indicação de Duarte trouxe uma "questão complicada" para Washington.
A maioria das autoridades norte-americanas diz não temer que o Brasil ressuscite seu programa de armas nucleares e admite que o país tem motivos legítimos para manter suas conquistas tecnológicas sob sigilo.
Mesmo assim, segundo uma fonte norte-americana de primeiro escalão, o Brasil "é o único país entre os fornecedores nucleares que não assinou o Protocolo Adicional".
"Um país que é líder por seu tamanho, conquistar técnicas, localização e posição no movimento dos não-alinhados precisa liderar", afirmou ele, lembrando que o Brasil apoiou o Protocolo Adicional como uma importante ferramenta contra a proliferação nuclear quando ele foi criado.
Essa fonte afirmou que o que preocupa Washington é "o sinal que é passado se um país com a base tecnológica sofisticada não está preparado para isso". Não temos razão para acreditar que eles têm algo a esconder. Eles dizem que não têm nada a esconder. Portanto o Protocolo Adicional não deve ter maiores consequências para o Brasil. Mas a adoção do Protocolo por parte do Brasil seria uma mensagem forte para o resto do mundo."