Uma corte marcial dos Estados Unidos condenou nesta quarta-feira o primeiro dos soldados acusados de envolvimento na tortura de iraquianos na prisão de Abu Ghraib à pena máxima de um ano de prisão, e ordenou que ele fosse desligado do Exército por má conduta.
O reservista da polícia militar americana Jeremy Sivits, de 24 anos, foi ainda rebaixado a recruta, mais baixa patente militar, três a menos que sua atual posição. O desligamento e a prisão eram a punição mais dura que poderia ter sido dada a um militar sob as regras da corte marcial.
Sivits havia se declarado culpado de duas acusações de maus tratos a presos, uma de conspiração para maus tratos e outra de negligência, por não ter protegido os detentos iraquianos dos abusos de seus colegas militares.
Ele foi o autor da maior parte das fotografias dos maus tratos que chocaram o mundo e havia feito um acordo com seus superiores, ao denunciar - em detalhes - as atitudes de seus colegas durante o abuso em Abu Ghraib. Ele deve testemunhar nos julgamentos de outros dois réus do caso.
O juiz, coronel James Pohl, disse entretanto que Sivits não perderá dois terços de seu soldo, outra punição que poderia ter sido dada. O juiz disse ter tomado a decisão para que a família de Sivits, que vive numa área rural da Pensilvânia, não perca renda.
Sivits testemunhou que outros membros de sua unidade, a 372ª companhia da polícia militar, espancaram e humilharam sexualmente de presos iraquianos, num caso que minou profundamente a imagem dos EUA no Iraque e no mundo árabe. O soldado fez um apelo lacrimoso antes da saída da sentença, pedindo que fosse autorizado a permanecer no Exército.
- Quero ficar no Exército, eu amo a bandeira - disse ele. - Tudo que sempre quis ser foi um soldado americano.
Logo após declarar-se culpado, Sivits deu à corte detalhes explícitos dos abusos que segundo ele ocorreram no dia 8 de novembro e envolveram seis ou sete outros militares americanos. Ele lembrou, por exemplo, que a recruta Lynndye England - que aparece na maior parte das fotos de tortura - apontava para genitais de um preso e ria. Em alguns momentos o réu parecia conter lágrimas, nervoso, ao narrar os abusos.
Na semana passada, a imprensa afirmou que Sivits estava cooperando com os investigadores e dando detalhes por vezes chocantes da má conduta de seus colegas. Em seu depoimento a seus superiores, meses antes do julgamento, ele disse que o soldado Charles Graner forçou os prisioneiros a tirar a roupa, fez troça deles e "deu um soco com punho cerrado tão forte na têmpora de um preso que o homem desmaiou".
Horas mais cedo, três soldados acusados de abuso se recusaram a declarar-se culpados ou inocentes numa audiência pré-julgamento, e voltarão à corte no dia 21 de junho. Ao todo, sete soldados foram acusados em ligação com o escândalo. Cortes marciais contra três outros soldados ocorrerão na quinta-feira.
As regras de tribunais militares proíbem câmeras na corte, mas alguns jornalistas puderam assistir ao julgamento. Centenas de outros viram a sessão por circuito interno de TV, numa sala de conferência perto do local.