O que traz um certo conflito para um estudante de jornalismo idealista (e, na maioria das vezes, voltado para a área cultural) é entrar em uma redação e cobrir o cotidiano com a forma sóbria do noticiário comum. Para muitos a pasteurização da escrita leva a uma exaustão mental que impregna. E com o tempo, o estudante vira um profissional e todo o idealismo vai pro ralo. Ou melhor, toda a tentativa de causar um impacto com uma estratégia narrativa inovadora é amortecida e fica em banho-maria. A objetividade das notícias anestesia qualquer espécie de fuga do lugar comum do jornalismo atual.
Na contramão do que se convencionou chamar de Novo Jornalismo, as empresas hoje apostam em hard news (não só jornais, mas rádios e TVs). Ou seja, notícias secas e diretas. É exatamente assim que funciona, por exemplo, a Band FM, inaugurada há menos de um mês na estação onde antes foi ao ar a inovadora Fluminense FM. Não tem jornalismo nenhum ali, apenas um tempo morto onde o ouvinte teoricamente "sabe de tudo que acontece no mundo em 20 minutos". Ou o mundo virou o fundo do quintal ou o ouvinte foi descartado da proposta. A objetividade é um vício. O público alvo é a droga.
É completamente compreensível que nesse mundo transitório de hoje o jornalismo só possa ser visto como algo rápido, fácil e corriqueiro. E, voltando ao citado Novo Jornalismo - uma proposta revolucionária iniciada nos anos 60 com Capote, Wolfe, Talese, Mailler e Thompson -, verdadeiro exercício literário de driblar a óbvia obviedade do noticiário tradicional... o que restou dele?
Restaram vozes solitárias, que lançam livros-teses sobre como escrever bem e dar uma banana para os executivos, que só visam manter um canal aberto com a mente pouco desenvolvida em seus veículos de comunicação desalmados. Uma dessas vozes é Tom Wolfe, que tem seu novo livro Eu sou Charlotte Simmons, lançado pela editora Rocco.
Em seu novo livro, fica uma certeza: Wolfe é o principal personagem. Se Truman Capote e Gay Talese pregam uma escrita mais descritiva, romanceada e próximo do que se ousaria deduzir como imparcialidade, se contentando em ser apenas um narrador frio e detalhista que tem a sua disposição toda uma argumentação embasada em muitas leituras e informações, Wolfe é o narrador-personagem.
Não que seja narcisista, mas Tom Wolfe é uma espécie de Hunter Thompson enrustido. Enquanto Thompson era o personagem principal de seus artigos, que narravam suas experiências lisérgicas pela América dos loosers, Wolfe se faz como o principal personagem de seus textos pela forma como dialoga com o que está tratando. Thompson fala sobre Thompson e Wolfe fala sobre como Wolfe vê determinado fato. É só comparar um livro como A grande caçada aos tubarões (Conrad) e Ficar ou não ficar (Rocco) e ver as diferenças. Ambos são brilhantes, cada um ao seu modo. Ambos parecem gritar o mesmo: "Parem com essas malditas fórmulas no jornalismo!".
Agora voltamos a Eu sou Charlotte Simmons, uma obra, digamos, numa linha mais clássica na literatura de Wolfe. A mesma de Emboscada no Forte Bragg e A fogueira das vaidades. A vertente mais literária e livremente ficcional do autor, sem reflexões profundas e o uso deliberado de sua persona como "senhor da história". Charlotte Simmons é a prova de que o que restou do Novo Jornalismo foram, apenas, nomes. Reparem na lombada do livro. O nome de Wolfe é enorme, o título é apenas um selinho na parte inferior. E isso porque se trata de uma obra wolfeana light. Quem vai ler, certamente vai mais pelo Wolfe do que pela tal Charlotte Simmons. E mesmo que ele não seja o personagem da história, ele é vendido como tal.
Talese também virou um monstro sagrado. Essa nouvelle vague do jornalismo acabou virando a calçada da fama. Na galeria literária, vai ler-se o Talese no livro do Talese como va
Eu sou Tom Wolfe! (e quem diabos se importa com Charlotte Simmons?)
Na contramão do que se convencionou chamar de Novo Jornalismo, as empresas hoje apostam em hard news (não só jornais, mas rádios e TVs).
Quarta, 22 de Junho de 2005 às 23:08, por: CdB