PorJosé Inácio Werneck - Na manhã desta segunda-feira, 16 de março, senti vergonha ao ver no noticiário de estações americanas e inglesas imagens de pessoas desfilando em Copacabana com uma imensa faixa dizendo: INTERVENÇÃO MILITAR JÁ! É isto que estão querendo, a volta à ditadura, no mesmo diz em que se comemora o dia em que o último general deixou o poder, que ocupava ilegitimamente, e passou-o a um civil?
Colunista sente-se envergonhado diante do desejo de retorno à ditadura militar, por parte de certos manifestantes contra o governo
Na manhã desta segunda-feira, 16 de março, senti vergonha ao ver no noticiário de estações americanas e inglesas imagens de pessoas desfilando em Copacabana com uma imensa faixa dizendo: INTERVENÇÃO MILITAR JÁ!
É isto que estão querendo, a volta à ditadura, no mesmo diz em que se comemora o dia em que o último general deixou o poder, que ocupava ilegitimamente, e passou-o a um civil?
Infelizmente, passou-o a José Sarney, num perfeito exemplo do que diz o poema de T. S. Eliot: “entre a ideia e a realidade, cai a sombra”.
Não sou defensor de Dilma nem de Lula e só votei no PT uma única vez, justamente quando Lula perdeu para Fernando Collor de Mello.
A escolha naquele ano era claríssima, pois era inconcebível votar no farsante “caçador de marajás”.
O PT também revelou-se um perfeito exemplo de que, “entre a ideia e a realidade, cai a sombra”.
Foi um partido que renegou sua luta contra as “maracutaias” e, uma vez no poder, revelou-se incompetente e corrupto.
Mas, como dizia Winston Churchill, “a democracia é o pior de todos os sistemas de governo, com exceção de todos os outros”.
Vamos protestar contra a incompetência e a corrupção, sem nos esquecermos de que esta é companheira inseparável da vida cotidiana no Brasil. Quem, entre aqueles que se manifestavam, nunca subornou um guarda ou nunca deu uma propina numa repartição pública?
No Brasil é notório, por exemplo, que ações na Justiça só andam na base de gorjetas nos cartórios.
Nosso país ocupa posição lamentável nos índices internacionais de transparência.
Para um dia chegarmos a ser uma Finlândia ou uma Dinamarca precisamos mudar toda a nossa mentalidade - seja do PT, do PSDB, de civis ou de militares.
Durante a ditadura também houve corrupção - e muita.
Também houve incompetência - e muita.
Havia uma inflação intolerável, além do sangue de assassinados e torturados.
É isto que querem de volta?
Vamos seguir nosso destino de república imperfeita, esperançosos de que um dia as coisas melhorem.
Mas protestemos sem pedir “intervenção militar já”.
Fiquei com vergonha. A democracia é o pior de todos os regimes? Sim, com exceção de todos os outros.
José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
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