Uma vez Delfim Netto disse que em algum momento o PT teria que vencer, fracassar, e aí "poderíamos governar o país com calma". Ao se valer dos erros do PT, objetivo do bloco que comanda as denúncias não é destruir o governo Lula, mas derrotar a própria esquerda.
A crise atual não absolve os partidos que governaram o Brasil ao longo de toda sua história, mas condena o PT, ao igualar-se a eles. Quem são o neto de ACM, Álvaro Dias, o PFL e os tucanos - todos protagonistas diretos não apenas da compra de votos para a reeleição de FHC, como da maior dilapidação do patrimônio público mediante as privatizações - para erigirem-se em arautos da moralidade e dos interesses públicos no país?
Nenhum deles ficou melhor, apenas uma parte dos dirigentes do PT é que piorou, ficou igual a eles. O que não os faz melhores do que esses dirigentes - ou ex-dirigentes - petistas.
A construção de maiorias parlamentares mediante favores, entrega de cargos, financiamentos, favorecimentos e entrega de recursos monetários sempre fez parte da política brasileira. Os governos Sarney, quando obteve um quinto ano de mandato, Collor, como método de governo, e FHC, inclusive para conseguir seu segundo mandato, para não ir mais longe, usaram e abusaram desses meios.
O grave é que o PT também o faça. Um partido que se notabilizou, entre suas principais características, pela luta pela moralização da política, que podia enumerar trabalhos sistemáticos de controle e de denúncias de atentados aos interesses públicos, além de vários governos municipais, em que pôde demonstrar - pelo menos em uma parte importante deles, como em Porto Alegre, Caxias do Sul, Belém, Recife, entre outros - um espírito público inovador na política brasileira.
O objetivo maior do bloco que comanda as denúncias atuais - que vai da grande mídia monopolista, passando pelos partidos da direita e chegando a parlamentares que se pretendem de esquerda, mas que não conseguem se diferenciar dos da direita, especialmente quando se sentem diante das câmaras de televisão - não é nem o de destruir o governo Lula, embora possam alimentar essa esperança, mas derrotar a esquerda, mediante o massacre do PT.
Quem lê os jornais e as revistas - da Folha ao Globo, do Estado à Veja, se dá conta do ódio de classe, revestido de defesa da moralidade na política. Uma vez Delfim Netto disse que em algum momento o PT teria que vencer, fracassar, e aí "poderíamos governar o país com calma". Esse é o programa da coalizão que se vale dos graves erros do PT para tentar impor uma derrota estratégia à esquerda, que deixe inscrito na história brasileira e no imaginário das pessoas que a esquerda ganhou, fracassou, se envolveu em corrupção, e assim dilapidou a oportunidade histórica de transformar o Brasil, como sempre prometeu.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de <i>A vingança da História</i>.