Cerca de 500 mulheres da região sudanesa de Darfur foram atendidas depois de serem vítimas de estupro nos últimos meses, e a maioria acusa soldados ou milicianos, segundo relatório de uma entidade humanitária obtido na segunda-feira pela Reuters.
Mas o número de vítimas de estupros é provavelmente maior, pois muitas têm medo de denunciar os crimes para não serem estigmatizadas ou maltratadas, de acordo com o estudo da entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF).
O chefe de assuntos humanitários da ONU, Jan Egeland, deu aval completo ao relatório, que, segundo ele, documenta pela primeira vez evidências médicas sobre os abusos generalizados contra as mulheres naquela árida região do oeste do Sudão.
Ele afirmou que homens armados e soldados do governo estiveram envolvidos em estupros, mas que às vezes é difícil identificar corretamente os criminosos. "São geralmente os homens armados nas milícias, mas acho que os soldados do governo também estiveram envolvidos, e também muitas das milícias étnicas", afirmou.
Egeland disse que o governo não pode manter esses crimes impunes. "O problema é agudo e disseminado. O Sudão nunca teve esse tipo de estupro sistemático antes", afirmou Egeland. "Agora, o Sudão tem o mesmo problema que vemos em muitos outros países africanos e outros conflitos, e o governo sudanês tem de encarar isso", disse ele a jornalistas em Cartum.
O governo acusa a imprensa e grupos humanitários de exagerarem a quantidade de estupros ocorridos durante os mais de dois anos de rebelião em Darfur.
O estudo do MSF diz que mais de 80 por cento das vítimas acusaram milicianos ou soldados. O texto não especifica se as facções rebeldes também são consideradas milícias.
Em relatos anônimos, o estudo descreve como três mulheres do Estado de Darfur do Oeste foram agredidas e estupradas por cinco homens em outubro. "Depois de abusarem de nós, eles nos disseram que agora teríamos bebês árabes, e que se eles encontrassem mulheres fur eles as estuprariam novamente para mudar a cor dos seus filhos", disseram as vítimas.
Fur é o nome de uma das três tribos não-árabes que formam a maioria dos quase 2 milhões de refugiados de Darfur, onde os rebeldes pegaram em armas no começo de 2003, acusando o governo de negligenciar a região e de favorecer as tribos árabes.
Os rebeldes de Darfur dizem que a milícia árabe, apoiada pelo governo contra a rebelião dos não-árabes, comete uma campanha de queimar aldeias e estuprar mulheres. O governo nega ligação com a milícia, conhecida como Janjaweed.
O chefe da missão do MSF no Sudão, Paul Foreman, disse que o governo pediu à agência que não divulgasse o relatório, que será publicado na terça-feira, Dia Internacional da Mulher.
Segundo o texto, as clínicas do MSF em um dos três Estados da região atenderam 297 vítimas de estupros, com idades de 12 a 45 anos, entre outubro e meados de fevereiro.
Por causa da vergonha e da ameaça de prisão por gravidez ilegal que existe no Sudão, onde vigora a lei islâmica, o MSF "acredita fortemente que os números registrados são apenas uma representação parcial do número de vítimas".
As mulheres permanecem dias em cativeiro e são estupradas por vários homens, sendo que muitas são espancadas, de acordo com o relatório. Algumas sofrem ostracismo nas suas comunidades, e outras foram presas.
Egeland disse não esperar que o MSF sofra ameaças de expulsão do Sudão, como aconteceu com as ONGs Oxfam e Save the Children UK, que publicaram relatórios contrários ao governo em 2004.