Durante a programação do 21º Encontro de Auditores Fiscais de Teresina (Enafit), o padre mineiro Ricardo Rezende, que foi palestrante convidado, tratou sobre a escravidão no País. Uma pesquisa elaborada por ele indica que o Piauí é um dos Estados que "exportam" trabalhadores escravos para outras regiões.
Rezende trabalha há mais de 20 anos no sul do Pará, na Comissão Pastoral da Terra, e desenvolveu, através de uma universidade do Rio de Janeiro, tese de mestrado e doutorado em Antropologia Cultural a respeito do trabalho escravo.
Como tema de pesquisa, escolheu os "escravos" que saíram da cidade de Barras (PI) e de mais quatro municípios do Mato Grosso, com destino ao Pará. Rezende explica que escolheu esse universo para coleta de dados por vários motivos. Primeiro vêm as diferenças entre Barras e norte do Mato Grosso: no primeiro caso, a cidade é antiga e, as pessoas se conhecem; no segundo, a população chegou há pouco tempo, vive em trânsito e não se conhece.
Em comum, estas pessoas têm baixa escolaridade, ou analfabetismo, não tem profissão definida, nem trabalho na cidade onde moram. O sistema de escravidão baseia-se no aliciamento seguido de aprisionamento "moral".
Primeiro os responsáveis pelo recrutamento oferecem trabalho e recompensa financeira. Em seguida, transformam esses benefícios do "funcionário", numa dívida sem fim.
De acordo com o padre Rezende, uma política de combate ao desemprego é fundamental como medida preventiva aos casos de trabalho escravo. Como ação curativa, cita a possível aprovação de uma Emenda Constitucional que ordena a perda da propriedade em que for constatado o trabalho escravo. "Quando o primeiro fazendeiro perder suas terras, o fato ganhará um efeito cascata e os outros terão medo de se arriscar", prevê.
Rezende diz ainda que a população precisa ficar atenta às medidas do Governo Federal, sobre o assunto. "Em março, o Presidente Lula lançou uma proposta de erradicação do trabalho escravo no Brasil e manteve a fiscalização móvel, o que demonstra verdadeiro interesse sobre o tema", diz.