As agressões contra mulheres que demoram a denunciar o agressor podem piorar com o tempo. Essa é a conclusão de um estudo feito pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp), unidade técnica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A pesquisa mostrou que 53,1% das mulheres vítimas de agressões graves de origem sexual viviam há mais de dez anos com o agressor.
Nas mulheres com até cinco anos de união, o percentual de agressões cai para 16,9%, quando de origem sexual, e 26,7% nas de origem física e psicológica. Foram analisados os prontuários de 684 mulheres atendidas no Centro Integrado de Atendimento à Mulher (Ciam) entre 1999 e 2000. A unidade fica no Rio de Janeiro e presta atendimento psicológico, social e jurídico a vítimas de violência doméstica e sexual.
"Na verdade, essa é uma característica muito específica da população que nós estudamos, elas têm em média 12 anos de união com o agressor", afirma a autora do estudo, Jurema Mota. As mulheres pesquisadas também têm por volta de 37 anos e 92,8% têm filhos.
A psicóloga da Universidade de Brasília (UnB) Suely Guimarães estranha a informação de que a maioria das mulheres vivia com os agressores há mais de dez anos. "É estranho que a mulher tenha permanecido na relação esse tempo todo, porque provavelmente ela é agredida e violentada ao longo desses dez anos", afirma.
Uma das explicações possíveis é a baixa escolaridade das mulheres avaliadas. O estudo revelou que 66% só estudou até o ensino fundamental e tanto vítimas quanto agressores costumam exercer profissões de baixa qualificação.
"O fato de ter baixa escolaridade geralmente é um indicador de baixo nível socioeconômico, então ela pode ser financeiramente dependente desse agressor", afirma Suely. Segundo ela, esse pode ser um dos motivos para que a mulher não abandone o cônjuge agressor.
Denunciar e procurar ajuda é, para Jurema Mota, a única saída para melhorar a situação das vítimas. "A recomendação principal é a mulher tomar alguma iniciativa no início do comportamento violento do agressor. O que ela não pode é deixar a situação de violência se repita, porque como mostrou o nosso estudo, essas agressões vão se tornando progressivamente mais graves ao longo do tempo".
Estudo revela que demora na denúncia piora agressão contra mulheres
Quarta, 23 de Junho de 2004 às 11:22, por: CdB