Os colchonetes e as mochilas esparramados na ante-sala do reitor da Universidade Federal da Bahia indicavam que a manifestação não tinha hora para acabar.
- Só sairemos da Reitoria quando atenderem as nossas reinvidicações - disse Kleber Rosa, estudante e um dos organizadores da movimento.
Logo no início da manhã, a faixa 'A Ufba agora é negra' e o carro de som tocando reggae recepcionavam adeptos das políticas afirmativas: estudantes do ensino médio e membros de entidades de defesa aos negros, como o Coletivo de Estudantes Negros Universitários da Bahia (Cenumba) e o Comitê Pró-Cotas, dentre outros.
Segundo Cláudio Roberto de Almeida, representante do comitê, foi uma ocupação construtiva.
- Realizaremos atividades como apresentações de teatro e mostras de filmes em vídeo. E não sairemos enquanto não chegarmos a um resultado - reiterou Almeida.
Uma das reinvidicações é a aplicação das cotas de 40% para negros já para o próximo vestibular. Segundo Angela Guimarães, membro do Comitê Pró-Cotas, o DCE elaborou propostas de cotas no início de 2001, e as encaminhou para o reitor Naomar Almeida, que deu início a um Grupo de Trabalho (GT) para discutir a questão.
- O grupo só se reuniu três vezes - diz Kleber Rosa.
Os estudantes pedem a abertura imediata de um GT que tenha a participação de três representantes negros do grupo Pró-Cotas e que discuta políticas afirmativas. Eles também querem que se estabeleça um calendário para a implementação destas políticas, além de audiências públicas para a comunidade.
A cobrança da inscrição para o vestibular também motivou o movimento.
- Atualmente, para ter a isenção de taxa do vestibular, o estudante tem que pagar R$15. Então não é isenção - reclama Quelmonis Souza, que está no 3º ano do ensino médio e pretende fazer vestibular para biblioteconomia.
Roquildes Ramos Silveira, do Movimento Pró-Cotas, afirma que o reitor disse publicamente que seriam isentas sete mil pessoas oriundas da rede pública neste vestibular 2004. Não há, porém, qualquer isenção, já que todas estas pessoas tiveram de pagar R$15.
Às 15h da última terça-feira, o reitor Naomar Almeida divulgou um documento para os manifestantes e recebeu a imprensa presente no local.
- Basicamente, eles querem a aceleração do sistema de cotas para negros. Ou seja, eles querem para já. Mas já, para hoje, não é possível. Tudo isso é parte de um processo de discussões com a sociedade e com os conselhos superiores da Ufba - explicou.
Ainda assim, o reitor adiantou que a cota não será geral.
- Alguns cursos da Ufba não precisam de cotas, por terem negros em percentagens perfeitamente aceitáveis. Outros cursos, como medicina e direito, realmente precisam de um sistema de cotas, mas não apenas para negros, e sim, cotas sociais para alunos da rede pública - disse o reitor.
Ainda segundo o reitor, naquele exato momento, o GT instituído pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão apreciava as reivindicações dos manifestantes.
- Inclusive, já marcamos uma reunião do GT para a próxima segunda-feira. Ou seja, daqui até lá não haverá qualquer modificação no cenário - disse.
Outra reivindicação importante, a isenção total de taxa para o vestibular, está descartada.
- Isso simplesmente inviabilizaria o processo de seleção. Sem taxa não tem vestibular - sentenciou o reitor.
Quanto à ocupação de sua ante-sala, Naomar Almeida esclareceu que não pretendia envolver a polícia no caso.
- Ninguém quer tirar ninguém à força da ante-sala, mas a Ufba, apesar de pública, é um patrimônio do estado sob nossa responsabilidade. Ninguém dorme na Reitoria, só os seguranças. Contudo, nossa intenção é sempre resolver tudo na negociação - completou.
Estudantes querem sistema de cotas na Bahia
Quarta, 13 de Agosto de 2003 às 00:28, por: CdB