A estátua de Alison Lapper, uma mulher que nasceu sem braços e com pernas muito curtas, foi erguida, na quinta-feira, em Trafalgar Square, em Londres, em uma homenagem da cidade aos deficientes físicos.
Sob chuva intensa, o prefeito de Londres, Ken Livingstone, inaugurou o monumento do artista britânico Marc Quinn. De acordo com o escultor, a estátua simboliza "a coragem, a beleza e a rebeldia desta cidade".
Com 3,5 metros de altura e 11,5 toneladas de peso, a escultura é de mármore branco da Toscana e mostra em todo seu esplendor uma mulher deficiente nua e grávida de oito meses.
À primeira vista, a obra parece chocante, mas, como aponta a própria modelo, um segundo olhar convida "a rever o conceito de beleza".
- É uma honra para mim estar aí em cima - exclamou Lapper, momentos antes da revelação da figura que, por 18 meses, enfeitará a praça, a poucos metros do busto do almirante Horatio Nelson.
- Estamos fazendo história. Nunca antes um deficiente físico, e ainda mais uma mulher nua e grávida, foi exposta em lugar tão proeminente e de forma tão positiva - afirmou a inspiradora da obra.
Na sua opinião, a obra de Quinn, alvo de críticas no Reino Unido, "aborda todos os preconceitos e tabus existentes sobre sexualidade, incapacidade, feminilidade e gravidez".
O autor, conhecido por sua maneira particular de explorar o corpo humano, através de esculturas de deficientes físicos ou de placentas, entre outras, agradeceu a oportunidade de poder mostrar sua arte no centro da metrópole.
- Alison Lapper grávida" procura "interagir com o público - disse o artista antes da inauguração.
- Com sorte, depois do impacto inicial, a escultura nos comoverá - acrescentou.
Alison Lapper nasceu com focomelia, uma doença genética cujos sintomas são o desenvolvimento anormal dos membros, de modo que as pernas se assemelham às patas de uma foca.
Foi criada em uma instituição do Estado, um lugar a meio caminho entre "o carinho e a crueldade", segundo conta na autobiografia que acaba de publicar, <I>My Life in my Hands</i> (<i>Minha vida em minhas mãos</i>).
Após estudar belas artes, atualmente ganha a vida pintando com a boca e os pés. Ainda é mãe solteira de Parys, de 5 anos, fruto de uma relação já terminada.
Durante um ano e meio, a réplica de seu corpo nu será exibido em um pedestal da Trafalgar Square, erigido em 1841 para sustentar uma estátua eqüestre que não chegou a ser feita por falta de verbas.
Por decisão da Prefeitura, esse espaço vai acolher, a partir de agora, de forma rotativa, obras significativas de artistas britânicos e internacionais escolhidas por um conselho de especialistas.
Bert Massie, presidente da Comissão para os Direitos dos Deficientes, parabenizou o artista "por saber captar a beleza e a força dos corpos dos deficientes físicos, algo raramente reconhecido nestes tempos em que se idolatram a juventude e a beleza".
Após o fim da exposição de Alison Lapper, em abril de 2007, ocupará seu lugar na praça o <i>Hotel de pássaros</i>, de Thomas Schütte.