Rio de Janeiro, 31 de Agosto de 2026

Estão utilizando os arrastões

Por Mário Augusto Jakobskind - Os arrastões não são fatos novos. Nos dois governos de Leonel Brizola ocorreram os tais arrastões e no governo de Benedita da Silva.

Sexta, 25 de Setembro de 2015 às 12:00, por: CdB

Por Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro

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Tem gente interessada em provocar os arrastões
Os arrastões nas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro e até mesmo no centro da cidade maravilhosa não são propriamente fatos novos. Quem não tem memória curta lembra perfeitamente que nos dois governos de Leonel Brizola ocorreram os tais arrastões. No governo de Benedita da Silva, numa antevéspera de eleição, também. Em várias ocasiões constatou-se que os incidentes foram forjados e a participação da mídia hegemônica, leia-se Rede Globo, foi decisiva no sentido de criar pânico entre a população. Os arrastões mais recentes ganharam dimensões e as imagens da violência correram o mundo, provocando consequentemente sérios danos ao turismo no Rio de Janeiro e do Brasil. Câmaras da Globo sempre presentes Por coincidência ou não, mais uma vez a TV Globo esteve presente no momento exato de um dos arrastões na praia do Arpoador, tendo com uma das vítimas uma turista europeia que fez questão de afirmar que jamais voltaria ao Rio de Janeiro. A mesma Rede Globo não cobre a violência que vem sendo praticada sistematicamente pela polícia em áreas carentes do Rio de Janeiro. São mortas gente inocente, em sua maioria afrodescendentes, e o Secretário de Segurança José Mariano Beltrame  não aparece da mesma forma como nos acontecimentos recentes na Zona Sul carioca. Beltrame parece que nesta hora se esconde ou então a mídia hegemônica não o procura para explicar as violências policiais. Apenas incompetência? No caso dos recentes arrastões na Zonal Sul as autoridades agiram de forma inconsequente. Como a Justiça tinha impedido a prisão de menores nos ônibus sem flagrante delito, o Secretário José Mariano Beltrame disse em entrevista que a polícia se sentia “constrangida” e “obedecia à lei”. Na prática, para usar uma expressão popular “deixou correr”. Ficou evidente que no fundo ele queria o apoio da opinião pública contra a medida da Justiça. Foiu a forma que encontrou para justificar a incompetência de sua gestão. A polícia não foi impedida de agir preventivamente e obedecer a lei. Beltrame deixou as praias vazias de policiais que foram atender aos organizadores do Rock in Rio. Beltrame não pode mais justificar a ausência do policiamento no atendimento ao Rock in Rio, tanto assim que mesmo com a continuidade do show musical, desta vez, em função dos recentes acontecimentos, as praias não ficarão mais vazias de policiais. Dá ou não dá para ficar com a pulga atrás da orelha? Os arrastões se multiplicaram e acirraram o preconceito e racismo de setores da classe média da Zona Sul carioca que decidiram fazer justiça pelas próprias mãos. Foram gravadas cenas chocantes de menores sendo retirados à força de ônibus em plena Avenida Copacabana. Tudo realmente, no mínimo muito estranho, ainda mais quando se sabe que a polícia e a Secretaria de Segurança Pública têm um setor de inteligência. Uma pergunta que não quer calar: por qual motivo a inteligência não foi acionada para identificar quem faz os arrastões? Seria apenas incompetência? ´ Na prática, os maiores atingidos pelo esquema truculento, seja por parte dos integrantes dos arrastões ou dos justiceiros de índole fascista, são os pobres, afrodescendentes que vão às praias de ônibus ou metrô. E que as autoridades querem proibir. Racismo hitórico Não é de hoje também que esses cidadãos brasileiros pobres são mal vistos pelos truculentos de índole fascista que agora se organizam através de redes sociais para agredir os que consideram “invasores” de seu território. No governo Brizola quando linhas de ônibus foram autorizadas a utilizar o Túnel Rebouças para facilitar a ligação da Zona Norte e subúrbio com a Zona Sul, houve protestos de frequentadores (racistas) das praias. Neste setembro de 2015, os racistas estão se valendo de justiceiros truculentos para atacar. Os que se consideram donos das areias, sobretudo das praias de Copacabana, Ipanema, Leblon, não excluindo moradores de bairros como a Lagoa, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes podem ser facilmente identificáveis. São os mesmos integrantes da classe média de médio ou alto poder aquisitivo que em meses anteriores saíram às ruas de Copacabana pedindo o impedimento da Presidenta Dilma Rousseff e os ainda mais radicais a volta da ditadura militar que assolou o país por 21 anos. Carona dos donos de ônibus Na carona dos arrastões se consolida também a decisão dos proprietários dos ônibus, juntamente com a Prefeitura, de cancelar várias linhas que fazem a ligação das Zonas Norte e subúrbios com a Zona Sul. Com isso, os usuários, a maioria absoluta de trabalhadores, serão obrigados a fazerem baldeação, tanto na ida como na volta. Redução de linhas para possibilitar ainda maiores lucros aos proprietários de veículos coletivos, como Jacob Barata, identificados como detentores de contas no exterior com polpudas quantias que não passaram pelo crivo do Imposto de Renda, mas que são beneficiados pela impunidade promovida por decisão da Câmara dos Deputados que ordenou a suspensão do aprofundamento das investigações nas contas do HSBC na Suíça. O que vem acontecendo no Rio de Janeiro deve ser objeto de uma profunda investigação para evitar não só interpretações equivocadas sobre os nefastos acontecimentos, como também a manipulação da informação. E, além do mais, para acabar de uma vez por todas com a barbárie, que pode estar sendo estimulada para fins inconfessáveis. Jornalão abre o jogo não esconde apoio ao golpe A Folha de S. Pauloo passou dos limites ao apresentar na primeira página editorial denominado “Última Chance” em que exigia da Presidenta Dilma Rousseff mais arrocho em cima dos trabalhadores. E ainda por cima afirmando que se ela não fizer o que deve ser feito, isso, claro, na concepção dos Frias, ou seja, contra a maioria do povo brasileiro, Dilma não resistiria. É assim que age a mídia conservadora e quando questionada utiliza o argumento de que a liberdade de imprensa está ameaçada. Para tanto se vale até da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), a entidade que agrupa os grandes proprietários de veículos de comunicação do continente americano. Vale lembrar que a Folha repete a história de outros tempos, como 1964, por exemplo, em que os jornalões não escondiam nos editoriais e no tipo de cobertura que faziam, dando todo apoio ao golpe para a derrubada do Presidente constitucional João Goulart. Se recuarmos para 1954, poderá se constatar que jornalões como O Globo e outros como a Tribuna da Imprensa repetiam o discurso de ódio contra Getúlio Vargas, que acabou tendo de dar um tiro no peito para evitar o golpe de estado em andamento. Não tem sentido a gritaria de hoje em que a direita exige o fim do mandato de Dilma Rousseff. Não há base legal para isso, mas a Folha de S. Paulo e outros jornalões não estão nem aí. Repetem a história do esquema golpista. É visível. Pode-se criticar a Presidente Dilma Rousseff por não se concordar com medidas para enfrentar a crise. Mas daí a pregar o golpe vai uma distância muito grande. Em 1964 ainda havia um jornal antigolpe, como a Última Hora de Samuel Vainer. Mas hoje está prevalecendo na mídia de mercado o esquema do pensamento único total e absoluto. Os brasileiros que acompanham o noticiário diário nos jornalões, nas tevês ou nos rádios ficam com a sensação de que o Brasil chegou ao fim e caiu mesmo no abismo, sendo a única saída o retorno de setores políticos que não se conformam até hoje com o resultado das urnas presidenciais de outubro de 2014. Como se tais grupos políticos tivessem a fórmula de enfrentar a crise atual, superdimensionada diariamente. No mais, os brasileiros não querem mais arrocho de nenhuma espécie, até porque a história deste país comprova que esta forma de governar o país não leva a nada, ou melhor, objetiva apenas manter privilégios em detrimento da maioria da população. Defender a legalidade é dever de todos os que se consideraram defensores da democracia, que, claro, precisa ser aprimorada. Quanto ao combate a corrupção, certamente é uma exigência. Caso em outros tempos se enfrentasse como hoje a corrupção, certamente teria se evitado o surgimento de figuras como o ex-presidente da Petrobras e ex-ministro da ditadura, Shigeaki U eki, hoje vivendo como nababo nos Estados Unidos e assim sucessivamente. Mesmo com todo rigor atual, fica complicado enfrentar quadrilhas que se locupletam com propinas de toda espécie  quando a Câmara dos Deputados aprova, contra a opinião da maioria dos brasileiros, o financiamento empresarial de campanha, um dos grandes focos de safadeza nos dias de hoje. E ainda por cima pelo que foi aprovado vai ficar ainda mais difícil se saber o destino da grana dos empresários agora financiadores de partidos políticos. Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV trasnmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançado no Rio de Janeiro. Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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