Por Rui Martins - Colunista, criador do movimento Estado do Emigrante, explica por que decidiu se licenciar da luta pelos emigrantes por um tempo indeterminado.
A renúncia de Rui Martins não teria sido uma denúncia ?Preciso confessar – não consigo mais tocar três coisas ao mesmo tempo. Faz algum tempo, e bastante longo, a luta pela emancipação política dos emigrantes se transformou na minha atividade principal.
Em detrimento do meu trabalho como jornalista, meu ganha-pão, que diminuiu sensivelmente por falta de tempo. E em detrimento da redação do meu livro, que está praticamente parado, e mais do que vencido o prazo que me foi dado pelo editor .
Minha intenção era de anunciar minha parada definitiva em 2014, depois dos resultados das iniciativas tomadas este ano. Entretanto, diante das novas lideranças que surgem e de pessoas entusiasmadas em prosseguir a luta, vi que não sou mais imprescindível e decidi – mas foi difícil – parar agora por um tempo indeterminado, que poderá ser de um ou dois anos.
Digamos, o tempo para poder terminar meu livro, cujos assuntos principais, o assassinato pelo Doi-Codi de um pastor leigo presbiteriano e o advento dos evangélicos, se tornaram dois temas atuais – um por servir de subsídio à Comissão da Verdade e outro por buscar as origens da invasão evangélica, que hoje ameça nosso Estado laico.
Sem me licenciar, por algum tempo, dessa luta benévola e voluntária pela emancipação política dos emigrantes, que tanto me entusiasma e que me levou a pronunciar palestras em Nova Iorque, Boston, Newark, Zurique, Genebra, Berlim, Bruxelas, Berna e a ir a Brasília encontrar autoridades, sempre arcando com as despesas, não poderei mais assumir minhas responsabilidades familiares e profissionais.
Dou-me por realizado como cidadão com o reconhecimento público e do Acnur da importância da luta pelos brasileirinhos apátridas, na conquista da Emenda Constitucional 54/07, recuperando a nacionalidade brasileira nata para os filhos dos emigrantes.
A luta por uma Secretaria de Estado dos Emigrantes que, no início, parecia uma quimera, um sonho utópico e irrealizável, assumiu hoje viabilidade e não é mais impossível. A representatividade dos emigrantes por parlamentares emigrantes eleitos por emigrantes também começa a obter mais adesões em Brasília. Tanto que a PEC 05/05 já é considerada obsoleta e minimalista, devendo-se pensar em algo mais bem estruturado incluindo deputados e senadores e em número mais importante, como ocorre na França.
A Subsecretaria-Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior (Sgeb) que assumiu indevidamente a tutela dos emigrantes deverá convocar este ano a IV Conferência Brasileiros no Mundo com uma inovação – cada Conselho de cidadania indicará seus representantes e dos 60 indicados sairá o novo CRBE.
A tática parece correta, porém peca pela base, pois os conselhos de cidadania são presididos pelo Consul local, cuja influência se fará sentir na escolha do representante para a IV Conferência. Embora não disponham de liberdade de ação, submetidos que estão ao Consul local, os membros desses conselhos jubilam com o fato de poderem sentar-se ao lado do Consul, vendendo por tão pouco a nossa independência e emancipação.
Como os Conselhos de cidadania não foram eleitos originalmente para escolher o futuro CRBE, seria o caso de se requerer um Mandado de Segurança. Porém, isso exige tempo e um bom apoio, que não se consegue facilmente e nem no número necessário.
Com minha experiência destes anos de luta pela nossa emancipação, acho haver ainda só uma pequena minoria decidida a lutar por uma Secretaria dos Emigrantes e, mesmo assim, dividida por ambições pessoais e políticas. Os demais estão interessados no mercado emigrante que tanto pode ser religioso como comercial.
O combate, portanto, ainda vai ser longo e exigirá muita paciência.
Vez ou outra, se as situações exigirem, escreverei sob o logotipo do Estado do Emigrante, mas será coisa rara. Espero que voltemos a nos encontrar com assiduidade depois do meu recesso, após a publicação do meu livro.
O espaço no Facebook continuará aberto, mas sem minhas participações.
Grande abraço em todos os amigos que têm aderido e que me acompanharam nessa luta, nestes cinco anos, espero que continuem agindo e batalhando durante minha ausência, o que lhes dará maior liberdade de ação.
Pelas razões mencionadas não participarei do II Forum de Emigrantes em Londres . Sucesso a todos e até qualquer dia desses,
(Publicado originalmente no site Direto da Redação)
Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente em Genebra.
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