Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Essa matéria do <i>NYT</i> é uma tremenda calhordice

Por Gilberto de Souza - O que o New York Times fez, na matéria publicada neste sábado, sobre a convivência presidencial com o copo é, na realidade, de uma calhordice sem fronteiras. (Leia Mais)

Segunda, 10 de Maio de 2004 às 16:48, por: CdB

O que o New York Times fez, na matéria publicada neste sábado, sobre a convivência presidencial com o copo é, na realidade, de uma calhordice sem fronteiras. Não faz muito tempo, em uma entrevista que fiz com o ex-governador Leonel Brizola, ele disse - com todas as letras - que Lula bebia "até não se agüentar de pé", e em uma oportunidade, ajudou o então candidato petista à Presidência a desembarcar do jatinho em que viajavam "porque ele estava completamente 'mamado", disse. Isso foi publicado no Jornal do Brasil, com fonte identificada, e a repercussão foi mínima, pois sabe-se o quanto o líder do Partido Democrático Trabalhista é magoado com o atual presidente. Nem Brizola esconde a antipatia que nutre por Lula, muito menos Lula importa-se com o que diz o ex-aliado.

Agora, a partir de ilações aos montes, junto com a única citação em on - Brizola - e a realidade, vai aí uma diferença monstruosa para o Brasil, para o presidente da República e, por último, para os jornalistas especializados na cobertura política do país que, em tese, não viram o que reparou o repórter norte-americano. Ora, ele não será mais arguto do que qualquer "foca" brasileiro por publicar o que ninguém provou, tanto por ser um festival de baboseiras, quanto pela falta de consistência jornalística no texto. Pior ainda é o NYT entrar de sola nesta cascata. Sinal que apuração já não é mais o forte do velho diário nova-iorquino.

A situação do presidente neste caso, então, é a mais prejudicada. Que ele gosta de um uisque, de uma cerveja ou mesmo de uma cachacinha, isso não é mistério para ninguém. Muito menos Lula procurou esconder tal hábito. Ora,  como diria o falecido Jânio Quadros, ele bebe porque é líquido, se fosse sólido, mastigaria. Hipócritas são aqueles que, agora, fazem caras de espanto diante da revelação ianque, como se alguma coisa precisasse dar no New York Times para ser verdade.

A realidade é que a matéria, por mais calhorda que seja, ajudou a derrubar a bolsa de valores, elevou a cotação do dólar e causou um prejuízo consistente à imagem do governo que, convenhamos, não anda lá estas coisas depois do escândalo dos bingos e do salário mínimo de fome que acaba de editar. Como sempre, a tribo tupiniquim escorrega no provincianismo e cai feito pato na armadilha daqueles que querem desestabilizar, a custo de qualquer argumento, esta tentativa de o Brasil ser um país digno de respeito no exterior.

Senhor presidente, todo cuidado é pouco.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil

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