Por Rui Martins - A cada viagem ao Brasil, fico impressionado com a importância dada pela mídia ao futebol. Matéria rala, fácil, intuitiva na qual qualquer analfabeto pode se tornar doutor. Fim-de-semana é praticamente impossível se evitar os comentaristas (que discutem seriamente como se estivessem solucionando crises mundiais) e as transmissões dos jogos, tanto quanto os apelos pela conversão transmitidos pelas emissoras evangélicas. No fundo, o futebol é também uma religião, capaz de provocar extases e com um lado coletivo semelhante ao dos cultos e missas.
Nosso país não deve ser só da soja, da Xuxa, do Faustão e do futebol
A cada viagem ao Brasil, fico impressionado com a importância dada pela mídia ao futebol. Matéria minimalista, fácil, intuitiva na qual qualquer um pode se tornar doutor. Fim-de-semana é praticamente impossível se evitar os comentaristas (que discutem seriamente como se estivessem solucionando crises mundiais) e as transmissões dos jogos, tanto quanto os apelos pela conversão transmitidos pelas emissoras evangélicas. No fundo, o futebol é também uma religião, capaz de provocar extases e com um lado coletivo semelhante ao dos cultos e missas.
Para quem não tem atração especial por esse esporte, só resta mesmo a opção de desligar rádio e televisão, uma boa coisa, pois a vida oferece atrações mais enriquecedoras. Entretanto, fico sempre intrigado com a excessiva ênfase dada ao futebol no Brasil, como se fizesse parte das subvenções distribuídas à população, uma espécie de ópio ou droga para o povo. Parodiando Maria Antonieta, se poderia talvez dizer "pode faltar pão, mas não falte futebol".
Minha curiosidade por esse esporte que se pratica sentado, comendo chips, mastigando amendoim e bebendo cerveja, retorna a cada quatro anos, nas épocas dessa competição internacional criada primeiro pelos ingleses da Fifa e agora em mãos de alguns aproveitadores da ingenuidade popular e do nacionalismo de cada um.
A cada vez, percebo um controle maior dos jogos com o objetivo de se criar plataformas publicitárias, vendidas a peso de ouro. Para manter emulação, cria-se um clima de disputas nacionais às quais não falta o patriótico hino nacional de cada país. Não existe coisa mais brega do que jogadores, treinadores e público cantando sua pátria amada, como se seus jogadores estivessem à beira de hostilidades guerreiras, prontos a defenderem a honra nacional correndo atrás de uma bola, se dando trancos e cotoveladas com o objetivo de chegar ao gol.
Esse clima de demonstração de brios nacionais acaba por assumir ares de ufanismo patriótico no caso de vitória e de desgraça, de humilhação e vergonha quando ocorre a derrota. A consequência lógica é a utilização política desse clima eufórico, como ocorreu nas vitórias brasileiras durante a época da ditadura militar, postura que a própria esquerda governamental pensava poder utilizar neste ano eleitoral, sem perceber o risco de ser considerada corresponsável no caso de derrota e pior ainda, no caso de derrota vergonhosa. Submisso à Fifa e sem poder interferir nas pífias escolhas da CBD, o governo por imperícia política poderá se tornar o bode expiatório da derrota futebolística com as repercussões do mau preparo da chamada seleção se fazendo sentir até nas eleições presidenciais.
Ora, a Copa do Mundo de Futebol, embora reúna bilhões de telespectadores e se torne um dos principais temas dos noticiários durante um mês, não passa do que os americanos chamam de enterteinement, em outras palavras, divertimento, passatempo, espetáculo, nada mais que isso, recheado de emoções, de surpresas e de suspenses. O ranking econômico dos países, a qualificação mundial em termos de alfabetização, pobreza, saúde, corrupção não depende de gols e nem de ídolos jogadores capazes de acertar o gol nos chutes dados na bola com os pés. Depende de opções políticas.
Entretanto, a péssima performance brasileira nessa Copa ou Festival de Futebol, poderia servir para nossos amigos de esquerda no poder darem ênfase a valores mais importantes para a juventude. Acentuando a partir de agora a qualidade do ensino, estraçalhado pelos anos da ditadura, para que além de futebol a juventude tenha acesso à música, concertos, teatro, mais incentivo à leitura e à literatura assim como à ciência. Já que o Brasil não é mais o país do futebol seria importante se usar rádio e televisão para maiores espaços culturais.
A própria Alemanha, também dirigida por uma mulher, poderia ser um modelo - além de ser um país campeão mundial de futebol com jogadores fortes e bem treinados com alto sentido de jogo coletivo, é também país de grandes compositores, de grandes concertos, universidades, escolas formadoras de técnicos especializados, economistas, cientistas, filósofos, professores e esse conjunto faz a força e o prestígio desse país dentro da União Européia. É essa pluralidade que o Brasil deve aspirar e por ela deve se mobilizar. Isso não exclui o futebol, mas não podemos continuar sendo só soja, Xuxa, Faustão e futebol.
Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, editor do Direto da Redação, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Foi duas vezes eleito representante no Conselho de Emigrantes, para os quais quer a emancipação política. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa.
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