Rio de Janeiro, 18 de Maio de 2026

Esquerda marcha desunida nas eleições da Argentina

No próximo 27 de abril irá acontecer, na Argentina, uma eleição para eleger o novo presidente e vice-presidente. Após a ruptura do bloco político que promovia a não participação nesta disputa, a esquerda não conseguiu elaborar alternativas conjuntas. (Leia Mais)

Domingo, 02 de Março de 2003 às 12:24, por: CdB

No próximo 27 de abril irá acontecer, na Argentina, uma eleição para eleger o novo presidente e vice-presidente. Após a ruptura do bloco político que promovia a não participação nesta disputa, a esquerda não conseguiu elaborar alternativas conjuntas. Em 20 de dezembro de 2001, a rebelião popular conduziu à finalização antecipada do mandato do presidente Fernando De La Rúa. Assumiu o dirigente peronista da província de San Luis, Adolfo Rodríguez Sáa, que renunciou uma semana depois, ficando no posto Eduardo Duhalde (ex-vice-presidente de Carlos Menem). Rodríguez Sáa é atualmente um dos candidatos presidenciais, disputando este lugar com Carlos Menem e com o governador da província de Santa Cruz, Néstor Kirchner (que conta com o respaldo do atual presidente Duhalde). Concentrando-se as possibilidades entre estes candidatos, a eleição nacional tornou-se uma forma de anular as "prévias peronistas". No campo não justicialista, a deputada nacional Elisa Carrió, dirigente do ARI (Asociación por una República de Iguales) tenta gerar uma opção às fórmulas provenientes do peronismo, mas não consegue superar o descrédito acumulado pelo radicalismo e a Aliança (de onde são provenientes tanto Carrió como a maioria dos líderes políticos que a acompanha). Nenhum dos principais candidatos na disputa tem atualmente possibilidades de triunfar no primeiro turno, mas vários deles apostam chegar ao segundo turno, para somar forças frente ao ex-presidente Carlos Menem. Não se conhecem agora os alcances que poderia ter o voto em branco e as abstenções, que vêm crescendo como expressão da crise de representatividade do sistema político, e que, neste caso, é promovido por uma parte das correntes de esquerda e dos movimentos populares. Vale recordar que as eleições foram convocadas por Duhalde dois dias depois das jornadas repressivas de 26 de junho de 2002, na qual foram assassinados dois piqueteiros do Movimento de Trabalhadores Desocupados (MTD), Aníbal Verón, Darío Santillán e Maximiliano Kosteki. Após tentar responsabilizar o MTD pelos fatos sucedidos na Ponte Pueyrredón, Duhalde deu este passo, tentando amenizar o clima de indignação existente. Frente a isso diversos setores sociais e políticos articularam um bloco que promovia o rechaço a estas eleições (que entre outras coisas não inclui mais que a eleição da fórmula presidencial), e a proposta de uma Assembléia Constituinte. A consigna "Que se vayan todos", nascida nas jornadas de 19 e 20 de dezembro, unificou e mobilizou estes setores. Ao minguar a mobilização social, alguns partidos de esquerda optaram por participar na disputa, enquanto outros chamaram ao boicote, à abstenção, ou ao voto em branco. Entre os últimos, encontra-se o movimento Auto-Determinação e Liberdade, que encabeça o deputado portenho Luis Zamora, outras organizações de esquerda e um conjunto de movimentos piqueteiros, assembléias de bairros e trabalhadores de empresas recuperadas. Outro arco da esquerda tentou apresentar uma fórmula comum, a partir da aliança da Esquerda Unida (PC e MST), com o Partido Obreiro; mas estas intenções não puderam concretizar-se já que não se fizeram acordos em relação à ordem das candidaturas. Neste marco, frente à ofensiva institucional do poder e a um crescente descrédito das próprias eleições, o quadro da esquerda argentina mostra a dificuldade para transformar o crescimento da auto-organização e da rebeldia, em propostas políticas alternativas com capacidade de unir e mobilizar as amplas faixas do descontentamento.

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