A guerra de George W. Bush contra o Iraque teve efeitos colaterais não desejados por Washington. Um dos mais importantes é o renascimento da esquerda européia, fortalecida pelo apoio maciço a suas mobilizações pela paz. Aliados de Bush como os líderes britânico Tony Blair, o italiano Silvio Berlusconi e o espanhol José María Aznar vêem-se debilitados pelo apoio que dão a Washington, sem respaldo na população dos seus países, enquanto forças alternativas de oposição surgem ou se fortalecem e passam a incidir decisivamente nos destinos desses três países fundamentais para a Europa. Se as mobilizações contra a globalização neoliberal já haviam tido na Inglaterra, na Itália e na Espanha seus maiores sucessos, agora, quando Bush politiza a guerra e coloca o movimento diante da necessidade de enfrentar diariamente o império norte-americano, esse avanço molda as forças de esquerda do continente com novos contornos. Na Espanha, as eleições municipais do próximo mês encontrarão um partido socialista (o PSOE) favorito, com uma cara mais combativa de quando foi governo e uma Esquerda Unida em claro processo de fortalecimento, diante do enfraquecimento do Partido Popular de Aznar. Na Inglaterra, Blair sente a necessidade de fazer o perigoso jogo de divergir dos EUA sobre o futuro do Iraque, para tentar recuperar o prestígio perdido pela sua posição suicida de apoio a Washington. Ninguém se arrisca a prognosticar um futuro político para Blair, sequer no seu partido, em que volta a existir uma oposição de esquerda a seu governo. Na Itália, o surgimento do movimento chamado Abril cria uma crise na moderada DS (Democracia de Esquerda), fatia maior do antigo Partido Comunista Italiano (PC), promove um giro à esquerda, junto ao fortalecimento de Refundação Comunista (outro fatia do PC) - essa "mudança" deve se expressar tanto na greve geral do dia 12 contra a guerra, quanto no referendo que estende o direito ao trabalho, em junho. Nesse quadro geral, o isolamento norte-americano tornou-se uma conseqüência inevitável do unilateralismo de Bush e de seu reivindicado direito de atuar preventivamente contra o que considera um perigo potencial a seu poderio. Sem que ele menos espere, outros focos políticos de rejeição à sua política se articularão como subprodutos do unilateralismo de Washington. Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo) e "Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).
Esquerda européia renasce com a guerra
Por Emir Sader - Aliados de Bush como Blair, Berlusconi e Aznar vêem-se debilitados pelo apoio que dão a Washington, sem respaldo na população de seus países. Isso deve se refletir nas próximas eleições, em benefício da esquerda. (Leia Mais)
Quinta, 03 de Abril de 2003 às 16:35, por: CdB