A esquerda boliviana enfrenta dividida o plebiscito convocado pelo presidente daquele país, Carlos Mesa, sobre a política de hidrocarburos. Esta política - questionada fortemente por todo o movimento popular da Bolívia durante as mobilizações que, centralmente por essa razão, levaram à queda do então presidente Sanchez de Losada, em outubro do ano passado - levou o vice-presidente Mesa, que assumiu a presidência, a convocar um plebiscito. A consulta é interpretada de diferentes maneiras por setores do movimento popular boliviano. Uma parte prega o boicote ativo ao plebiscito e outra propõe a votação favorável em três das cinco perguntas apresentadas.
Os primeiros setores - comandados principalmente pela Central Operário Boliviana (COB) - consideram que a complexidade das perguntas esconde a impossibilidade de uma decisão que atenda à reivindicação histórica do movimento: a nacionalização das empresas de gás, privatizadas a anos pelo governo boliviano. Outro setor - dirigido pelo Movimento ao Socialismo (MAS), liderado pelo ex-candidato à presidência, de origem indígena, Evo Morales -, considera que a resposta positiva às três primeiras perguntas e negativa às outras obrigaria o governo, sob pressão de mobilizações populares, a nacionalizar o gás.
Mesa consegue assim o que parece ser um dos objetivos da convocação ao plebiscito: consolidar uma fratura no movimento popular boliviano, responsável, quando esteve unido, pela derrubada de seu antecessor e cabeça de chapa nas últimas eleições presidências, Sanchez de Losada. Desta maneira, pretende consolidar a legitimidade que seu governo adquiriu, desde que inicialmente foi obrigado a anunciar que convocaria novas eleições e uma Assembléia Constituinte, como reivindicava o movimento de outubro passado. Mesa também anunciou a convocação do plebiscito, que agora acabou adquirindo forma ambígua e provavelmente se constituindo em uma armadilha para os que lutam pela renacionalização do gás boliviano.
Os movimentos de base estão majoritariamente pelo boicote e se preparam ativamente para isso, pregando inclusive as tentativas físicas de impedir a realização do plebiscito. Enquanto isso, o MAS se propõe a mobilizar seus militantes para tentar garantir fisicamente sua realização. A COB expulsou Evo Morales de suas filas, considerando-o traidor e acusando-o de tentar submeter o movimento popular a seus interesses de eleger-se o próximo presidente da Bolívia, já que está bem situado nas pesquisas eleitorais. Este, por sua vez, acusa a COB e os movimentos indígenas e camponeses que lutam pelo boicote de uma posição golpista, porque pregam a substituição do atual Parlamento por uma Assembléia Popular, similar à que existiu no início dos anos 70 no país. Morales considera que a via para se democratizar a estrutura política do país seria a Assembléia Constituinte.
A COB, por sua vez, tomando declarações feitas por Mesa, afirma que este interpreta o sim no plebiscito como um processo gradual de recuperação pelo governo do controle das empresas de hidrocarburos. O controle se estenderia por trinta anos mais, mas não significaria, de forma alguma, sua nacionalização, como que desmentindo a interpretação de Morales. A proposta de Morales de que, mediante mobilizações populares e um sim às três primeiras perguntas poderia levar o governo à nacionalização, além de se enfrentar à posição de Mesa, dificilmente se concretizaria com um movimento popular dividido como se encontra diante do plebiscito.
Se prevêem, assim, fortes tentativas de base de boicotar o plebiscito, diante da disposição do governo - e inclusive do MAS - de tentar garantir como possam a realização do plebiscito. Do resultado da consulta de domingo próximo sairá a configuração futura do movimento popular e da esquerda bolivianas, responsáveis, em sua atuação, pela criação do que alguns interpretam como uma situação revolucionária permanente, produto da capacidade de veto dos movimentos populares. I