Um bailarino vestindo uma imensa e bufante saia de bailarina, o tutu, passeia delicadamente pelo palco com um regador. Pára, simula regar plantas inexistentes em todo o metro quadrado absolutamente branco do cenário. Cena seguinte: em um insinuante vestido de cetim vermelho, uma bailarina de traços orientais exibe seus músculos. Na verdade, os músculos do companheiro que se posicionou bem atrás dela. São alguns jogos do feminino/masculino e da fantasia e dúvida propostos por Pina Bausch no espetáculo "Fur die Kinder von gestern, heute und morgen" ( "Para as crianças de ontem, hoje e amanhã") , que estreou em Barcelona, dentro da programação do Forum Mundial das Culturas.
Se a infância é onde tudo começa, que tal um segundo de volta, um minuto de sonho e fantasia? A força do imaginário infantil é o motor das 2 horas e 50 minutos de imagens, sons e movimentos do espetáculo, onde dança e teatro se fundem de maneira irretocável, relembrando o porque do interesse mundial pela obra de Bausch à frente do Tanztheater Wuppertal desde 1974.
A montagem, de fato, é de 2002, quando estreou em Paris. A vinda a Barcelona foi facilitada pela organizacão do Forum Mundial das Culturas. "É um privilegio vir a esta cidade, fico encantada com a beleza", comentou a coreógrafa, durante o tempo reservado a jornalistas internacionais, no Teatro Nacional da Catalunha, onde logo após a imprensa teve acesso ao ensaio geral.
Comedida que é nas palabras e gestos, Bausch não fez qualquer ressalva ao criar e dirigir "Fur die Kinder von gestern, heute und morgen". O humor e o lúdico são tão proximos da crueldade, fantasia e loucura da imaginacão e, portanto, da infância, que o espectador não tem como sair somente esperançoso do teatro. Há momentos de riso, sim, mesclados com a desconcertante ironia algo européia, difícil de tradução. Em alguns momentos, os bailarinos apostam uma corrida por cima de uma mesa giratória, em outros simulam vôos de pássaros, circulares e intermináveis, interrompidos por diálogos de um homem e uma mulher adultos, carregado de contradições sobre o amor. "Como seria se imaginásemos que somos um pássaro, livre de qualquer atadura", propõe o texto do espetáculo, que se mantém vivo, do início ao fim dada a contraposição constante energia versus melancolia. A origem, conta Bausch, é a continuidade de seu trabalho em busca dos sentimentos humanos e a infância é o territorio primordial e único, em que tudo é possível.
"O meu trabalho fala sobre as pessoas, seus sentimentos, medos e desejos. Em cada novo espetáculo, somente busco movimentos para expresar isso. No começo de minha carreira, me acusavam de provocativa. Nunca foi minha intenção. O que quero é comprender, estabelecer com o espectador uma certa relação de confiança. Nas minhas coreografias, há mais perguntas que respostas. Tento advinhar a origem dos sentimentos e porque se produzem em um momento determinado". Ninguém duvida.
Das 27 músicas escolhidas, há três de origem brasileira. Marimbariboba, de Naná Vasconcelos é ouvida durante um delicioso jogo de casais e cadeiras pelo palco, como um grande baile onde o troca-troca exagerado dá o tom humorístico. Caetano Veloso emprestou "Leãozinho" e "Você Gosta", do album Sao Paulo Confessions, de Suba, também integra a trilha. "Não escolho as músicas por nacionalidade, mas pelo que provocam e que não é possível dizer com palabras e gestos", explica, de antemão, a artista alemã que, ao final da entrevista, só não respondeu a uma questao: como teria sido a sua infância.
Espetáculo de Pina Bausch fala de crianças em Barcelona
Quarta, 26 de Maio de 2004 às 06:50, por: CdB