Será que eu também preciso sentir vergonha de mim e dizer que estou cansado do meu país, do meu povo, da minha história? É exatamente isto que me pergunto nestes dias em que venho recebendo muitas mensagens, por e-mail, respondendo ao artigo Carta aberta ao movimento Cansei, publicado na edição do último dia 23 do Correio do Brasil, onde escrevi tão somente o que as circunstâncias me fazem pensar. Percebi que havia a manifestação de uma parcela da sociedade expressando um sentimento específico, mas exposto de tal forma como se fosse o sentimento unitário da nação. Era um discurso com aparência de simbólico, como se fosse a unidade nacional através de um movimento denominado Cansei. Mas sempre me pareceu que a vergonha de si próprio e o cansaço da vida não são características originais do povo brasileiro.
Reconhecendo o direito de qualquer cidadão se manifestar e fazer sua justa reivindicação e de reunir pessoas e grupos para lutar por aquilo que acreditam ser bom para o país, fiquei em silêncio reverenciando o exercício da liberdade de outrém. Mas, também quis questionar para compreender melhor, para saber com mais nitidez o que estava acontecendo. E na minha liberdade também exerci o dever de dizer o que penso. Mas minha manifestação foi sonoramente respondida de uma forma que, de fato, ajudou-me a compreender, enfim, algumas coisas a mais que estão na essência, no motor do movimento Cansei.
Não faltaram palavras fraternas se somando ao que escrevi no artigo acima citado. Alguns até responderam, com o parecer contrário, mas aceitando minha livre posição diante do referido movimento. (Para muitos até retornei pedindo perdão por terem se ofendido com a forma como escrevi). O que me assustou, porém, foi o coro de manifestações que reagiu de tal forma como se me estivessem vetando, por uma força invisível, o direito de dizer as minhas palavras, numa lógica contrária à deles. É como se todo o Brasil devesse louvar o movimento ou ficar calado sem questionar nada a seu respeito.
Penso, no entanto, que qualquer movimento que surge é a reação de uma ação anterior, que vai gerar outras reações e estas podem ser contrárias ou favoráveis. Quando erguemos uma bandeira, devemos ter consciência disso, um movimento nunca é unanimidade. E se for conduzido nesta lógica de pensamento, num discurso hegemônico, só tende a prejudicar a democracia.
Penso também que, não aderir ao movimento Cansei e/ou questiona-lo, como fiz, não significa estar de acordo com as falhas do governo Lula, nem tampouco significa estar tranqüilo diante dos fatos que marcam o cenário social, econômico e político brasileiro. Se não decretei meu “cívico” cansaço em comunhão com o do movimento Cansei, isto não significa estar acomodado. Não significa, de modo algum, que compactuo com a corrupção e a falta de vergonha na cara de muitos políticos deste país. Não ser adepto do Cansei, absolutamente, não significa estar acovardado e não ter capacidade de indignação, de espírito cívico e patriótico.
Bem pelo contrário, minha indignação tem raiz e solidez. Germinou na história da legítima organização dos pobres. Estou na luta por um Brasil melhor, muito melhor do que este, e melhor para todos e todas que ao longo da história foram deserdados.
Frei Pilato Pereira
pilato@capuchinhosrs.org.br
Especialmente para alguns membros do <i>Cansei</i>
Por Frei Pilato Pereira - Será que eu também preciso sentir vergonha de mim e dizer que estou cansado do meu país, do meu povo, da minha história? (Leia Mais)
Quarta, 29 de Agosto de 2007 às 14:31, por: CdB