A Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) é uma rede de mais de 800 organizações da sociedade civil - entre sindicatos de trabalhadores rurais, associações de agricultores, cooperativas de produção, igrejas católicas e evangélicas e ONGs ambientalistas - que trabalham pelo desenvolvimento social, econômicos, político e cultural de uma das regiões mais excluídas do país.
Criada em Recife em 1999, durante o Fórum Paralelo à Conferência de Combate à Desertificação e à Seca, a ASA vem se consolidando como um espaço coletivo de centenas de experiências de uma grande parcela da população brasileira que luta todos os dias por um semi-árido justo e igualitário. Deixando de lado o falso discurso de combate à seca, a articulação atua na proposição e implementação de políticas públicas que promovam a convivência com as condições climáticas locais para garantirem o desenvolvimento sustentável nos onze Estados que englobam a região.
Um dos principais projetos da ASA é o P1MC - Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: Um Milhão de Cisternas Rurais. O programa tem como meta construir, em cinco anos, um milhão de cisternas de placas na região, que proporcionarão água limpa e de qualidade para cinco milhões de pessoas. Em pouco mais de um ano, o P1MC construiu 50 mil cisternas, que já beneficiam 260 mil pessoas, e possibilitou o aumento da frequência escolar, a diminuição do número de pessoas com doenças em virtude do consumo de água contaminada e a geração de emprego e renda para os morados das comunidades onde as cisternas foram construídas.
É nessa linha de convivência - e não combate - com o semi-árido que as organizações que integram a articulação têm se posicionado fortemente contra o projeto governamental de transposição do rio São Francisco. O jornalista Henrique Cortez, também engenheiro, ambientalista e consultor da ASA, explica porque é inviável fazer a transposição do Velho Chico antes de sua revitalização, os interesses que estão por trás de quem banca do projeto dentro do governo e qual seria a chance de barrar essa transposição tão questionada por aqueles que têm sede e que, na teoria, seriam os mais interessados em receber as águas do São Francisco.
- É uma história complicada. Transposição significa tirar água de uma bacia hidrográfica e levar para outra. É uma tecnologia de mais de 100 anos, o mundo inteiro faz isso. A cidade de São Paulo recebe água de transposição do rio Piracicaba. A cidade do Rio de Janeiro idem. Existem casos de transposição excelentes e existem desastres. O problema não está na transposição, mas na concepção técnica e na realização da transposição. Tecnicamente falando, como engenheiro, eu diria que é muito simples. Ideologicamente, como ambientalista, também sei que é perfeitamente possível fazer isso de forma responsável, com danos ambientais facilmente mitigáveis, sem grandes dramas. Uma barragem causa muito mais estrago. A questão não está nisto.
A questão é que os três temas mais relevantes não estão sendo atendidos neste projeto - que é o mesmo projeto do governo anterior (as mudanças são mínimas) e que não deve ter sido muito diferente do projeto do D. Pedro II, de 1847. O primeiro deles é a revitalização do São Francisco. Não existe banco de sangue que aceite doação de doador anêmico. O rio está morrendo. O mar já entrou 50 km dentro do rio, já se pesca robalo, que é um peixe exclusivamente de água salgada, a 50 km da foz. Mas a revitalização é algo complicado, é demorado. Precisa de um grande pacto nacional. Primeiro, recuperar os mananciais, os olhos d'água, as nascentes, fazer a revegetação - são mais de dois bilhões de mudas de árvores a serem recuperadas, milhões de hectares -, acertar a questão fundiária de quem está hoje instalado na área de preservação permanente, a menos de 30 metros do rio. Tem que ter um processo.
Na bacia do São Francisco sã