Rio de Janeiro, 11 de Setembro de 2026

Espanhóis punem mentira e manipulação de Aznar

Por Emir Sader - A derrota da política belicista norte-americana na Espanha pode ser considerada como uma vitória do movimento por uma outra globalização. (Leia Mais)

Terça, 16 de Março de 2004 às 09:03, por: CdB

Os espanhóis puniram a mentira e a manipulação e, em uma virada de opinião pública inédita na Espanha, derrotaram o PP de José María Aznar e recolocaram os socialistas no governo, ao atribuir-lhes uma significativa maioria, embora não absoluta. Se até a quinta-feira 11 de março o PP dispunha de vantagem de entre 5 e 7% segundo as pesquisas eleitorais, e Aznar se preparava para se retirar vitorioso da vida política, entregando a um obscuro, mas efetivo e incondicional assessor seu posto, tudo mudou desde que os atentados foram imediata e insensatamente atribuídos ao ETA, contra toda e qualquer evidência e contra a mídia internacional. Com isso, Aznar e seu governo pretendiam encarnar a "unidade nacional contra o terrorismo", consolidando sua dianteira eleitoral e capitalizando o clima de dor e de sofrimento causado pelos atentados.

O "timing" do tempo decorrido entre os atentados e as eleições quase foi perfeito para a manobra de Aznar. Os partidos encerraram suas campanhas eleitorais um dia antes, mas o agora ex-primeiro ministro seguiu seus discursos com tons claramente eleitorais, insistindo que havia sido o ETA o responsável, consciente de que, se se triunfasse a versão - cada vez mais evidente, a partir de sexta-feira à tarde e do sábado de manhã - de que eram grupos islâmicos e que assim os espanhóis pagavam o preço da posição aventureira de Aznar de apoiar a Bush na guerra e na ocupação do Iraque, a situação sairia do seu controle. O PP foi expulso do poder pelos espanhóis, não por méritos de um PSOE debilitado desde que deixou o governo, exercido por Felipe Gonzalez, em meio a denúncias de corrupção e de violência paramilitar contra o ETA, assim deixando o país estagnado e com a maior taxa de desemprego da sua história. A vitória caiu no colo do PSOE e de seu até aqui pouco carismático candidato José Luis Zapatero, como resultado da rejeição do PP e de Aznar.

A Izquierda Unida foi vítima do voto útil, não confirmou a previsão de que recuperaria uma parte do que havia perdido nas eleições de quatro anos atrás. Mas o clima para as manifestações do próximo dia 20 deve retomar aquele das manifestações de um ano atrás, as maiores que a Espanha havia conhecido. O povo espanhol, independentemente do que seja o novo governo do PSOE, tomará a vitória como sua, de sua capacidade de mobilização e de desmascaramento de Aznar e do PP. O novo primeiro-ministro já anunciou que manterá a luta contra o terrorismo como sua prioridade, mas o PSOE ae opôs ao apoio da Espanha aos EUA na guerra e ocupação do Iraque, e isto deve mudar a política externa da Espanha. O anúncio, praticamente o primeiro do seu governo, de que a Espanha vai retirar suas tropas do Iraque, representa uma virada importante e uma derrota grave para Bush, tanto na sua política de guerra atual, quanto na sua campanha para a reeleição.

A virada à direita na Europa, consolidada há poucas semanas com a derrota dos socialistas na Grécia, pode sofrer uma inflexão a partir daqui, mas ela dependerá mais de problemas dos governos de direita - como as denúncias de corrupção na França e na Itália, assim como de problemas similares aos sofridos por Aznar, na Grã-Bretanha - do que contará com a força da oposição, até aqui pouco vigorosa para derrotar esses governos de direita. É o movimento por uma outra globalização que pode se fortalecer nesse espaço vazio, e a derrota da política belicista norte-americana na Espanha pode ser considerada como uma vitória desse movimento.

A retirada das tropas espanholas pode ser considerada como uma vitória desse movimento, que pode comemorá-la e avançar para novos objetivos nas manifestações desta semana, na Espanha, no resto da Europa e em outros lugares do mundo.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História <

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