Enquanto a Espanha chora as 198 mortes provocadas pelo pior atentado em 15 anos na Europa, investigadores tentavam nesta sexta-feira descobrir se foram separatistas bascos ou militantes islâmicos os responsáveis pelo ataque.
A campanha para as eleições gerais de domingo foi suspensa e milhões de pessoas devem sair às ruas em todo o país, atendendo ao apelo do primeiro-ministro José María Aznar, sob o slogan ``Com as vítimas, com a Constituição, pela derrota do terrorismo''. O último balanço oficial apontava 198 mortos, além de 1.430 feridos. Como 60 deles estão em estado grave, o número de vítimas fatais deve subir.
O governo inicialmente culpou o grupo separatista basco ETA pelas 10 explosões simultâneas que destruíram quatro trens de subúrbio na manhã desta quinta-feira. Contudo, uma van encontrada com sete detonadores e uma fita com versículos do Corão levou o ministro do Interior, Angel Acebes, a não descartar nenhuma linha de investigação.
Além disso, um jornal árabe editado em Londres recebeu uma carta, supostamente de um grupo ligado à rede Al Qaeda, reivindicando a ação. Jornais espanhóis dizem que descobrir o responsável pelo ''nosso 11 de Setembro'' é algo crítico para as eleições de domingo.
``O importante é esclarecer o que aconteceu e trazer à luz todas as evidências, para que os espanhóis possam ir às urnas sabendo quem é o autor do massacre'', disse o diário direitista El Mundo em editorial.
Se o ataque tiver sido obra do ETA, isso seria eleitoralmente útil para o governista Partido Popular, que sempre adotou uma postura dura contra os separatistas. Mas se for a Al Qaeda, o atentado será visto como um preço pago pelo apoio do partido à guerra do Iraque, apesar da oposição popular.
Os espanhóis continuam chocados e confusos com o ataque. ''Não saber quem é o responsável só torna isso mais terrível. Pessoalmente, não acho que a Al Qaeda possa agir aqui. Ou a única forma seria que eles pagassem alguém aqui'', disse Juan Ochoa, discutindo o caso em um bar de Madri.
Não foi possível esclarecer a autenticidade da carta atribuída às Brigadas Abu Hafs Al-Masri, um braço da Al Qaeda. ''Conseguimos nos infiltrar no coração da Europa dos cruzados'', disse a carta remetida ao jornal Al-Quds Al-Arabi.
Em meio a uma onda de dor e revolta, os espanhóis depositaram velas e flores na estação Santa Eugenia, zona sudeste de Madri, um dos três locais atingidos pelas explosões. Ao meio-dia (8h em Brasília), os trabalhadores devem parar, e às 19h (15h) haverá grandes passeatas em todo o país.
Testemunhas descreveram cenas de horror nas três estações de trens de Madri atingidas. ``O mais duro foi ouvir os celulares tocando nos bolsos dos cadáveres'', afirmou Esperanza Aguirre, líder da administração regional de Madri. ``(Quem estava lá) não conseguia tirar isso da cabeça.''
Especialistas israelenses, experientes em identificar corpos após atentados suicidas palestinos, foram chamados para auxiliar os patologistas espanhóis e devem embarcar para Madri em breve.
Se o ETA for de fato o responsável pelo ataque, terá sido o atentado mais letal já cometido pelo grupo, que matou 850 pessoas desde 1968 na sua luta pela independência do País Basco (dividido entre o norte da Espanha e o sul da França).
O ataque desta quinta-feira foi o maior na Europa desde dezembro de 1988, quando uma bomba explodiu a bordo de um avião da Pan Am sobre Lockerbie (Escócia), matando 270 pessoas a bordo e em terra.