Rio de Janeiro, 03 de Setembro de 2026

Escrava dos cabelos

Por Maria Lúcia Dahl - Sou escrava do meu cabelo desde que me entendo por gente. Quando era criança pedia à babá pra enrola-los e depois ficava encantada com a minha própria imagem de cachinhos no espelho.

Sexta, 17 de Julho de 2015 às 14:30, por: CdB
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Só os carecas não se preocupam com os cabelos
Sou escrava do meu cabelo desde que me entendo por gente. Quando era criança pedia à babá pra enrola-los e depois ficava encantada com a minha própria imagem de cachinhos no espelho. Então veio a adolescência enfatizando a vaidade e junto com ela uma paixão escondida que nutria por um menino do ginásio. Então, em nome das duas, passei a dormir todas as noites de rolinhos que repuxavam meu couro cabeludo. Tudo por causa da moda e do menino do ginásio. Depois dos Beatles, que fui vê-los no Teatro Olympia, já moça, em Paris,esperando-os na porta e gritando junto com mil tietes, mudei totalmente de maneira de pensar, assim como todos os jovens do planeta. Aí começou o problema, por que cabelos crespos, naquela época eram sinônimo de palavrão, e alisa-los, para mim, era muito mais difícil que encrespa-los. Então comecei a passa-los a ferro, ajoelhada em frente a tábua de passar roupa, com a mesma babá que os havia ondulado quando eu era pequena, numa nova modalidade de tortura. Depois fazia uma “touca”, e colocava um lenço por cima da cabeça. Aí, mais tarde, quando já era atriz e fui viajar pelo Nordeste, não saía do hotel por causa do ar refrigerado pros cabelos não encresparem lá fora com o calor do tempo misturado com a umidade. O cabeleireiro do teatro perguntou se eu queria fazer a “rudilha” depois do mis-en-plis, que custei a entender que era o que chamávamos de “touca” e passei a temporada inteira de rudilha, dormindo de touca. Deixei de frequentar aquelas praias maravilhosas, lugares incríveis, por causa dos cabelos e preferia sair à noite por que não tinha sol. Metade da minha vida e dos passeios maravilhosos que perdi por causa dos Beatles e dos Rolling Stones que vieram pra nos libertar de todos os tabus, menos da fôrma obrigatória dos cabelos. Então veio a fase hippie e resolvi adotar os cachos pra não parecer careta mas me achava horrível, gostava da bata indiana, da calça boca de sino mas forçava a barra pra tolerar os cachos. Até que chegou a fase pós-moderna, graças a Deus, quando cada um usa a moda que lhe ficar melhor. Então fiquei lisa de novo. Fui fazer uma escova no cabeleireiro e ele me perguntou se eu não preferia um alisamento japonês, definitivo. Disse que detestava aqueles fios espetados tipo Visconde de Sabugosa, e sobretudo, qualquer coisa definitiva. Então o cabeleireiro ajeitou o piercing do nariz, fez um trejeito contrariado e disse que pra “cabelo bandido” era o único jeito. Perguntei o que era isso e ele respondeu mal humorado: -É aquele, madame, que quando não está preso, está armado.” Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil. Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins
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